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O grupo Abril, a Sky e o laranjal
Na última quarta-feira, o CADE (Conselho
Administrativo de Defesa Econômica) julgou improcedente a queixa da
Abril contra a Globo por, supostamente, ter vetado, na operadora de TV
por satélite Sky, “canais pagos de conteúdo brasileiro” e “compra de
conteúdo nacional” (cf. Boletim da 38ª Sessão Extraordinária do Cade). A
Globo tem 26% da Sky no Brasil. A DirecTV, do magnata Rupert Murdoch,
tem os 74% restantes.
O “conteúdo nacional” que a Abril queria que
a Sky continuasse a veicular era a MTV – como se sabe, um canal de
conteúdo nacionalíssimo, a partir do nome, sempre pronunciado por seus
sagazes apresentadores como “êême-tíí-víí”, no mais puro vernáculo
brasileiro, tão puro e tão brasileiro que nem é português – deve ser
tupi-guarani.

Segundo a Sky, a Abril dobrou o preço pela
transmissão da MTV e condicionou sua veiculação à de dois outros canais
(Fiz e Ideal). Por isso, a Sky preferiu transmitir a MTV original, a
norte-americana, em vez da versão que a Abril macaqueou, a “MTVBrasil”.
Se houve veto da Globo, ou deixou de haver,
não sabemos. Difícil é que o pessoal do Murdoch, que tem a maior parte
da Sky, concordasse com tais condições. Assim, é provável que a Abril
esteja brigando com a Globo porque não tem coragem de enfrentar Murdoch
diretamente. O Bob Civita sempre teve uma especial predileção por atacar
os mais fracos e ficar de quatro para os mais fortes – veja-se o relato
de Mino Carta, que foi membro do “board” (assim mesmo, em inglês) da
Abril, no seu livro “O Castelo de Âmbar”.
A Globo, apesar de seus problemas – entre os
quais o de servir de laranja na TV paga para a Telmex/ATT&T – pelo menos
já produziu algum conteúdo nacional, e ainda produz, nem que seja a
novela das oito. Não que esse conteúdo seja o supra-sumo da estética
nacional. Pelo contrário, ele é cada vez mais desnaturado. Mas a Globo
não é meramente uma esculhambação contrabandeada, plantada e conservada
numa estufa de dólares obscuros, como a Abril.
Já esta última, não se tem notícia de nenhum
conteúdo nacional que tenha produzido. Nem mesmo é um grupo brasileiro,
desde que seu fundador, o falecido Victor Civita, cidadão americano de
New York, chegou ao Brasil - e muito menos depois que seu herdeiro,
Robert Civita, nascido na Itália, mas criado no grande país do norte,
assumiu sua chefia.
Quanto aos produtos do grupo, a “Veja” é uma
versão pornográfica da “Time” - da qual Robert foi diretor nos EUA. A
TVA é sobretudo da Telefónica de España - mas também da Disney e do
grupo Hearst (aquele cujo fundador serviu de modelo a Wells e Mankiewicz
para o mais famoso tubarão da mídia no cinema, o “Cidadão Kane”). Fora
isso, 30% do grupo é do Nasper, grupo de comunicação do nazismo
sul-africano, isto é, do apartheid.
O que há de mais parecido com “conteúdo
nacional” na Abril seria a “Capricho” e a “Contigo”, se também não
fossem versões das revistas de fofocas dos EUA, com personagens que
parecem brasileiros substituindo os americanos. Certamente, como os
demais produtos culturais (cáspite!) dos Civita, parecem ter sido feitas
com o uso de dois neurônios.
A Globo é um monopólio. Como tal, tem que
ser limitado e regulado democraticamente pelo Estado. Ou seja, a
coletividade, através do Estado, tem que coibir o seu caráter
monopolista. Mas o que é a Abril, senão um monopólio pior ainda, muito
mais suspeito desde suas origens, muito mais sem limites, muito mais
mafioso, e sem nenhum vínculo com o país?
Por isso, é estranho que o deputado Bittar
venha defender a Abril contra a Globo. Ou será que não é isso o que está
fazendo ao dizer que “a Sky tirou do ar a MTV de forma unilateral”? O
deputado tinha a opção de ficar calado - ou descer o relho nos dois. Até
porque, durante anos, a Abril impediu que as demais operadoras
transmitissem canais como os de filme da Time Warner (HBO),
monopolizando-os inteiramente na TVA. Portanto, não pode agora fazer
escândalo para obrigar outros a transmitir a gororoba que cozinha.
Porém, segundo Bittar, a Sky agiu dessa
forma “porque o mercado está bloqueado”, propondo como remédio o seu
substitutivo, o famigerado PL-29, que, simplesmente, libera a
propriedade estrangeira na TV paga, ou, mais precisamente, a legaliza,
transformando em monopólio aberto e legal o atual laranjal que, em
virtude da Lei do Cabo, que proíbe mais do que 49% de capital externo,
existe nesse segmento da comunicação.
A disputa entre as duas operadoras não são,
realmente, uma manifestação de concorrência, portanto de “livre”
mercado, e, sim, manifestações do monopólio – desavenças dentro de um
cartel. Nisso, o deputado está certo. O problema está em que sua solução
para desbloquear o mercado não é limitar o monopólio que o bloqueia, e
sim deixá-lo à solta, com sua legalização - mais ou menos como se a
sociedade pudesse se livrar dos ladrões pela legalização do roubo.
O sentido do seu projeto é, exatamente, mais
do que bloquear, manietar o mercado de forma muito mais brutal – e muito
mais estúpida.
CARLOS LOPES – Hora do Povo
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