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Empresários e trabalhadores exigem controle do fluxo de capital

Carta do Citibank ao Conselho de Desenvolvimento

Considerações da CGTB ao presidente do Citibank

 


Empresários e trabalhadores exigem controle do fluxo de capital

O controle governamental sobre o fluxo de capitais, as formas de evitar os juros de escorcha e os ataques especulativos estão sendo temas constantes dos debates realizados no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. “Pela maioria das intervenções, há uma tendência a que se proponha como um dos fundamentos determinado controle do fluxo de capital”, afirmou Tarso Genro, Secretário Especial do Conselho.Posteriormente, Gustavo Garat, presidente do Citibank no Brasil, enviou carta em resposta aos conselheiros que defenderam o disciplinamento da movimentação do capital especulativo externo. Rebatendo às considerações do Citibank, o presidente da CENTRAL, Antonio Neto, defendeu a necessidade de alguma forma de controle do fluxo de capitais.


Leia a seguir a íntegra dos dois textos:

Carta do Citibank ao Conselho de Desenvolvimento

GUSTAVO MARIN GARAT, presidente do Citibank

Venho por meio desta buscar contribuir para o debate a respeito do tema acima, tendo em vista notícias veiculadas pela imprensa de que membros do CDES haviam manifestado tendência favorável à adoção de controles de capitais no Brasil. Como presidente de instituição financeira que tem atividade financeira global e longa presença no Brasil, julguei oportuno dar minha contribuição, ainda que modesta, quanto à proposta de controle de capitais. Apresento a seguir alguns pontos que me fazem considerar esta alternativa como inadequada para o Brasil de hoje.

1. Até meados da década de 80, o Brasil conviveu com fortes controles à entrada e saída de capitais. Esta experiência redundou em enorme fracasso, promovendo um grande conjunto de distorções: mercado paralelo de dólares, dolarização de preços e forte processo de evasão de divisas por meio de mecanismos como subfaturamento de exportações e superfaturamento de importações, entre outros.

2. Ao longo dos anos 80 e 90, houve tendência à progressiva liberalização de fluxos de capitais internacionais por parte de países desenvolvidos e posteriormente, de países emergentes. No caso brasileiro, o processo teve início ao final dos anos 80 e está hoje em grande medida completo. Como resultado, o país teve a possibilidade de viabilizar o processo de estabilidade de preços e, ao mesmo tempo, elevar substancialmente o ingresso de investimento estrangeiro direto, tipicamente de longo prazo.

3. Não obstante este processo de liberalização, houve, durante o período de câmbio semi-fixo (1995 a 1998), medidas reiteradas de controle do ingresso de capital de curto prazo, por meio da utilização do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e medidas institucionais (prazos mínimos para captações). A experiência prática de tais medidas foi também fracassada: desenvolveram-se expedientes para contornar as restrições e não houve sucesso em controlar o ingresso de capitais de curto prazo. Há hoje bibliografia internacional e no Brasil atestando estas conclusões

4. Experiências ocorridas em outros países, inclusive desenvolvidos, (Chile, Colômbia, Espanha, Malásia) corroboram em grande medida a experiência brasileira. Foram em geral ineficazes para atingir os objetivos propostos, tendo sido invariavelmente abandonadas, mesmo no caso chileno, freqüentemente usado como modelo. No caso da Malásia, mais emblemático, as medidas duraram apenas um ano, tendo não obstante gerado forte queda do investimento estrangeiro direto.

5. A eficácia duvidosa dos controles cambiais é ainda mais questionável em regimes de taxas de câmbio flutuantes. Em tais regimes, o estímulo ao ingresso de capitais de curto prazo é limitado face ao risco cambial, que torna sujeito a perdas processos de arbitragem entre taxas de juros domésticas e externas. A combinação do câmbio flutuante com uma sólida regulamentação prudencial do sistema bancário – no caso brasileiro implementada ao longo dos últimos quatro anos – é a nosso ver a maneira mais eficaz para evitar os efeitos indesejados dos fluxos de capitais.

6. Em 2003, é natural que tenhamos assistido, no primeiro trimestre do ano, um certo predomínio de capitais de curto prazo em nosso financiamento externo, frente a recursos de prazos mais longos. Isto porque empresas e bancos que enfrentavam  prêmios de risco ainda estavam muito elevados, inconsistentes com captações mais longas. Quando o risco-país reduziu-se para níveis mais próximos de 800 pontos-base, frente ao esforço muito bem sucedido do governo em restaurar a credibilidade, foi natural o alongamento de prazos, comprovada pela recente emissão da Petrobrás, com prazo de 10 anos.

7. Alguns defensores do controle de capitais tem advogado esta medida como forma de evitar a apreciação do real, visando também reduzir sua volatilidade. A alternativa adotada pelo Banco Central – via redução da oferta de títulos e derivativos indexados ao câmbio – é muito superior, ao melhorar adicionalmente o risco da dívida interna e não causar danos à nossa credibilidade internacional.

Concluo esta breve contribuição manifestando minha opinião de que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, do qual me orgulho de ser membro, deveria concentrar suas atenções em questões de políticas estruturais, notadamente aquelas de cunho social. Ao voltar-se sobre questões de administração da política econômica – inclusive de medidas já descartadas pelo Ministério da Fazenda e Banco Central, como o controle de capitais – o CDES corre o risco de contribuir negativamente no processo de recuperação de credibilidade tão bem sucedido nestes primeiros seis meses do Governo Lula.

Aproveito para renovar protestos de elevada estima e consideração.

São Paulo, 7 de Julho de 2003.
 


Considerações da CGTB ao presidente do Citibank

ANTONIO NETO, presidente da CENTRAL

Em relação à carta enviada pelo companheiro membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Dr. Gustavo Marin Garat,  presidente do Citibank, que faz referência às colocações feitas entre outros pela nossa entidade, sobre o controle do fluxo de capitais , gostaríamos de apresentar as seguintes considerações

1. Não é conveniente ao Conselho o cerceamento da discussão. O controle do fluxo de capitais não é uma discussão meramente de “administração da política econômica”, como acredita o colega, mas uma definição estrutural, e hoje a principal, da política econômica brasileira. É preciso superar a má impressão de que o Citibank pretende reduzir as discussões do nosso Conselho às questões meramente perfunctórias.

2. Embora seja sempre uma satisfação discutir com o representante do Citybank, ele naturalmente não está credenciado a falar em nome do Banco Central nem do Ministério da Fazenda. Um e outro sequer chegaram a se manifestar sobre a discussão iniciada no Conselho a respeito do controle do fluxo de capitais, quanto mais a “descartá-lo”, como apressou-se a afirmar o colega. Lembramos também que o Banco Central é subordinado ao Ministério da Fazenda que, por sua vez, é subordinado à Presidência da República, que, menos ainda, se manifestou sobre o assunto. Outrossim, estamos seguros que o Dr. Gustavo Marin concordará que nós, trabalhadores, também temos alguma coisa a dizer nessa liberalização na qual ele deposita tantas esperanças e expectativas.

3. Nosso colega Dr. Gustavo Marin inverte os fatos: o que realmente fracassou,  e no mundo inteiro, foi a política da chamada liberalização do câmbio e dos juros altos.  Até meados da década de 80 a economia brasileira foi muito bem. Dos anos 30 aos anos 80 fomos a economia que mais cresceu no mundo, à taxas médias de 8% ao ano. De lá para cá, em especial nos últimos 10 anos, é que a coisa foi um fiasco. Desde meados dos anos 80, citados pelo companheiro, nos arrastamos a taxas vegetativas de 2% ao ano. O desemprego dobrou. O conjunto da dívida pública pulou de 150 bilhões para 900 bilhões. A dívida externa também dobrou, embora FHC tenha torrado quase 200 bilhões com ela. O patrimônio público nacional, a indústria e até o sistema financeiro, em boa parte, passaram para mãos estrangeiras. Fomos globalizados! E, para os brasileiros, qual foi a vantagem?

Até os anos 80 nunca houve qualquer dessas distorções a que o Dr. Gustavo Marin se refere. São, no essencial, recentes, da época de FHC, e do mal denominado liberalismo. O mercado paralelo de dólares sempre foi insignificante. A dolarização dos preços nunca houve no Brasil. É coisa “moderna”, do engessamento do câmbio, de 94 a 99, da correção das tarifas privatizadas pelo IGP-DI índice fortemente formado pela correção do dólar. E sobre evasão de divisas então nem se fala. A CC5 foi criada no governo Collor, e usada largamente no governo FHC. Está sendo investigada pela CPI. A PF já comprovou a evasão de mais de 30 bilhões de dólares só pelo esquema do Banestado. É um assalto ao Tesouro público. Tem que ser fechada. O resto é fichinha.

4. FHC nunca esteve interessado em controlar fluxo de capital algum. Pelo contrário, sua política era liberar o fluxo de capitais externos de qualquer origem, com taxas de juros siderais, para atrair, em  especial, o chamado capital portifólio. Nesse quadro , a manipulação do IOF não passava de simples maquiagem, sem qualquer efeito prático.

A tese que os grandes bancos são incontroláveis; de que, portanto, o Estado deve atuar no sentido de abdicar desse controle; que devemos aplicar uma “sólida regulamentação prudencial”  - ajustar tudo ao interesse dos bancos - , carece de qualquer fundamento e experiência prática positiva. Se quisermos controlar, tem como controlar. Certamente é necessário uma consciência maior dos agentes econômicos. Mas se fosse impossível, tão facilmente “contornável”, ”duvidoso”, “ineficaz”, etc., certamente o nosso companheiro banqueiro não desperdiçaria o seu precioso tempo para convencer os obstinados que não se dessem conta disso. Além do que a norma, em todo o mundo, sempre foi o controle do câmbio e do fluxo de capitais. A “liberalização“ da ação dos grandes grupos financeiros é uma experiência recente e mal sucedida.

Enfim, vamos ter que buscar credibilidade de outro jeito. Credibilidade trazida com juros de 26,5% quebra o país. Isso não é credibilidade.

5. A experiência do controle do fluxo de capitais externos no Brasil, aplicado durante mais de 50 anos, sempre se constituiu num importante instrumento de estímulo ao crescimento econômico. A liberalização total, da mesma forma, implementada particularmente durante os últimos 15 anos, foi um grande desastre para nossa economia. É isso o que demonstram, como vimos, os fatos e os números.

Também a experiência internacional comprova a eficiência desta medida.  O  exemplo da Malásia  foi, ao contrário do que imagina nosso colega, o mais contundente sucesso: o controle do fluxo de capitais permitiu que o país saísse da crise dos chamados tigres asiáticos e retomasse, de forma acelerada, o crescimento econômico. O PIB anualisado cresceu 8%, depois da medida. O desemprego caiu de 6,7% para 4,9%. As reservas cambiais superaram os níveis anteriores da crise e cresceram de 19,7 bilhões para 28 bilhões. A inflação caiu para 5% ao ano e, não por acaso, o dirigente da Frente Nacional Nahathin Mohamad foi reeleito com 76,6% dos votos, apesar das inexplicáveis pressões do governo norte-americano.

6. O que defendemos no Conselho, é antes de tudo o bom senso. A taxa de juros não pode ser um instrumento de combate a inflação. Isso é uma perversão da política econômica. Juro é a remuneração dos banqueiros e deve servir para financiar o desenvolvimento. As empresas precisam de financiamento para nascer e crescer como o corpo humano precisa do oxigênio. Por isso o banco tem um papel social importante na sociedade, e, como todos, têm responsabilidades e têm que estar sob o império da lei e da fiscalização do governo.

Hoje a coisa funciona ao contrário. Os juros são insuportáveis. Arrasam com a produção. Por isso precisamos inverter o sinal. Fazer uma reforma financeira profunda, que tenha como pilar a redução da taxa de juros a níveis compatíveis com a sua função natural de financiar a produção, e o fim dos privilégios do setor financeiro. Se os juros foram colocados na lua para atrair o capital vadio, é evidente que, se nós o reduzirmos  significativamente, poderá haver uma fuga, o que não interessa a ninguém, nem aos interesses gerais dos banqueiros, mesmo dos estrangeiros. Então, é indispensável regulamentar o fluxo a níveis compatíveis com a nossa capacidade econômica. Tudo simples, feijão com arroz, sem muita novidade e, como vimos,  já praticado com todo o sucesso.

Defendemos também o apoio e a proteção à empresa nacional . Todas as nações que se desenvolveram, sem uma única exceção, agiram dessa forma. Aliás, continuam  e continuarão agindo assim, independente dos nossos protestos.  Consideramos que a dívida deve ser paga conforme nossa capacidade, sem bloquear nosso crescimento. A nação não suporta mais manter o superávit primário nos níveis atuais. Além do que, com os juros escorchantes ela vai é aumentar. Seria, portanto, um sacrifício inócuo. O que precisamos é crescer , e assim aumentar a nossa capacidade de pagamento.

Esperando que estas considerações contribuirão para ampliação e aprofundamento deste importante  debate.

Subscrevemo-nos atenciosamente.

São Paulo 23 de julho de 2003.