Hora do Povo 06-09-2017

PIB segue estagnado e não cresce no primeiro semestre

Fonte: IBGE TAXA DE INVESTIMENTO DESABA FBCF/PIB (%)

 

 

Segundo o IBGE, de janeiro a junho, na comparação com o mesmo período de 2016, a economia registrou 0,0%. Já a indústria de transformação caiu pela 13º vez seguida, assim como o investimento

O alvoroço – do governo e de certa mídia – sobre o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre do ano, divulgado pelo IBGE, faz lembrar a conhecida frase do primeiro-ministro inglês Benjamin Disraeli: “Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”.

Considerando como, também, o aumento do subemprego foi transformado em queda do desemprego (v. matéria nesta página), é uma tentação concordar com Disraeli.

Mas seria injusto para com os estatísticos (e as estatísticas), que não são culpados porque mentirosos, vigaristas, empulhadores, à cata de uma gorjeta, falsificam o significado de seus números.
O que divulgou o IBGE?

1) Neste ano, desde janeiro – ou seja, durante o primeiro semestre - a economia brasileira, comparada ao mesmo período do ano passado, cresceu zero, ou seja, nada, permanecendo mais estagnada que o Grande Pântano Sombrio lá nas terras dos patrões do sr. Meirelles.

2) Nessa comparação, o motor do crescimento de qualquer país – a indústria de transformação – caiu pela 13ª vez seguida (-1%);

3) A construção civil caiu -6,6%, a 12ª queda consecutiva;

4) O conjunto da indústria caiu -1,6%;

5) O setor de serviços caiu -1%, com o comércio caindo pela 12ª vez seguida (-0,8%);

6) O investimento (Formação Bruta de Capital Fixo) caiu -5,1%, isto é, caiu pela 13ª vez seguida;

7) A taxa de investimento (investimento/PIB) foi a menor taxa trimestral já registrada pelo IBGE na atual série de pesquisas, que começou em 1996 (15,5%);

8) No ano – no semestre –, o consumo das famílias caiu -0,6%.

Esses resultados são de tal modo desastrosos que cabe perguntar – nem que seja por pura curiosidade – como fizeram aqueles marginais do Governo e do Congresso, e aquelas senhoritas e cavalheiros da mídia neoliberal, para apresentá-los quase como um crescimento chinês (pode não ter sido exatamente assim, leitor, mas foi por pouco).

Primeiro, eles apegaram-se à comparação do segundo trimestre do ano com o primeiro.

O resultado dessa comparação é uma variação de 0,2% no PIB. No primeiro trimestre houve um crescimento de 1%. Portanto, 0,2% no segundo trimestre indica uma queda de 0,8 pontos percentuais ou -80%. Mas os numerologistas econômicos passaram por cima desse problema.

E, mais ainda, de outro: para todos os efeitos práticos (e até mesmo teóricos) a diferença entre um crescimento de 0,2% e nenhum crescimento (crescimento zero) é inexistente. Mas essa inexistência, por ser positiva e não negativa, é suficiente para armar um carnaval, se não há muitos escrúpulos – ou se não há nenhum - ou para quem é dotado de um cérebro de alfinete, condição que não exclui a anterior.

Nessa comparação do trimestre contra o trimestre anterior, a agropecuária teve crescimento nulo (ou seja, zero), a indústria caiu (-0,5%), e a taxa de 0,2% é devida a um artefato: um crescimento de 1,4% no consumo das famílias.

Por que, perguntará a leitora curiosa, esse crescimento de 1,4% no consumo, em relação ao trimestre anterior, é um artefato?

Alguns economistas atribuíram esse crescimento do consumo à “recuperação do crédito às famílias e a liberação dos recursos do FGTS”, assim como à “desaceleração da inflação”.

Ainda que possam existir essas influências, esse aumento foi, essencialmente, devido a uma comparação deformada pelo consumo incrivelmente rebaixado, no primeiro trimestre deste ano.

Vejamos a variação do consumo, em termos constantes (ou seja, já descontada a inflação), tomando por base sempre o quarto trimestre de 2014:

- 1º trimestre/2015: -7,17%;

- 2º trimestre/2015: -8,78%;

- 3º trimestre/2015: -8,99%;

- 4º trimestre/2015: -6,70%;

- 1º trimestre/2016: -12,62%;

- 2º trimestre/2016: -13,19%;

- 3º trimestre/2016: -12,10%;

- 4º trimestre/2016: -9,45%;

- 1º trimestre/2017: -14,23%.

Como se pode ver, o consumo, no primeiro trimestre deste ano, estava no fundo do poço. Era esperável que uma comparação do segundo trimestre com o primeiro apontasse algum crescimento. Qualquer coisa é mais alta que o fundo do poço (o que não quer dizer que, em economia, ao contrário dos poços reais, esse fundo não possa ser ainda mais fundo – mas não foi isso o que houve no segundo trimestre deste ano, em relação ao consumo).

O importante, aqui, é que um aumento de 1,4% no segundo trimestre não significa nada, exceto que as famílias consumiram -12,52% em relação ao último trimestre de 2014.

Porém, esse aumento de 1,4%, apesar de sua insignificância real, foi suficiente para que o PIB, em vez de negativo, fosse positivo em... 0,2%.

O PIB atual, em termos reais, é menor que o de sete anos atrás.

O que causou essa catástrofe?

Uma política, sobretudo a partir de 2011 – e agudamente a partir de 2015 – de pilhagem do setor produtivo, tanto dos trabalhadores quanto dos empresários nacionais, em absoluto favor do setor financeiro, sobretudo o setor financeiro externo que, desde o governo Fernando Henrique, passou a dominar também a dívida pública interna.

É esse o significado dos milhões de desempregados, da queda do salário real, dos milhares de despejados que disputam lugar abaixo dos viadutos, da multiplicação dos que mexem no lixo atrás de algo que possa ser transformado em dinheiro e em comida, do amesquinhamento, quase aniquilamento, do setor público - cuja única finalidade, para as quadrilhas que se disfarçam de partidos, é aumentar estupidamente os ganhos e a propriedade do setor financeiro e monopolista, sob obesas propinas.

Essa política de bestial concentração de renda – que tem por principal meio os juros que estrangulam o país, e, por alarme, escandaloso e indecente, os consequentes ganhos vertiginosos dos bancos no momento em que todas as empresas produtivas têm prejuízos ou quedas abissais em seu faturamento –, chamada de “ajuste” por alguns cínicos, levou o país ao precipício onde estamos.

Dessa malta que se regozija e comemora quando o país tem zero de crescimento, só é possível esperar mais sofrimento e destruição.

Descartemo-la, portanto.

Fonte: Carlos Lopes / Hora do Povo