Fórum Nacional da Previdência alcança 38 pontos de consenso

 Centrais resistem a ataque contra Seguridade Social

 Os sete meses de debates desmontaram falso déficit e mostraram que Sistema é superavitário

 Nem bem o Fórum Nacional da Previdência (FNP) encerrou seus trabalhos, após sete meses de debates entre governo, trabalhadores, aposentados e empresários, os privatistas já alardearam que tudo não passou de “um esforço inútil”, pois não resultou em propostas concretas para cortar os direitos dos trabalhadores. O intento era aumentar a idade mínima da aposentadoria (67 e 62 anos para homens e mulheres, respectivamente), ampliar o tempo de contribuição para 40 anos, mudar as regras de pensões por morte e cortar recursos da Previdência. 

Numa análise superficial, baseada na lamúria dos escravistas, já é possível perceber que o resultado foi positivo, uma vez que seu objetivo não foi alcançado.

 Entretanto, não foi só isso. As 12 conferências do Fórum resultaram em um documento, encaminhado ao presidente Lula, informando os 38 pontos consensuais construídos (contra 4 sem acordo), que na essência possibilitam avanços no sistema previdenciário e ampliam direitos.

 Mas os trabalhadores obtiveram ainda outras vitórias. Em especial, a declaração assinada em conjunto com o governo reafirmando que “a Previdência Social deve seguir como parte integrante do conceito de Seguridade Social, financiando-se com recursos de contribuições dos trabalhadores e empregadores e das demais fontes do Orçamento da Seguridade Social, conforme a Constituição Federal”. 

Desmantelar a Previdência e desvincular suas fontes de financiamento era o objetivo central de quem advoga - diretamente ou envolto por futurologias apocalípticas - a sua privatização. Não por outro motivo que tanto se discorreu sobre a necessidade de reforma previdenciária. 

O esforço conjunto da bancada dos trabalhadores (integrada pela CUT, CGTB, Força Sindical, NSCT, UGT, Contag e Cobap) também foi chave para desmontar a campanha de setores da mídia, lançada há mais de uma década, de que a Previdência seria deficitária. Falavam em déficit da ordem de R$ 37,6 bilhões, em 2005, e R$ 42 bilhões em 2006.

 Para chegar a tal número, os falsificadores ignoraram justamente o item acima reafirmado por trabalhadores e governo, isto é, que a Seguridade é financiada por toda a sociedade, com recursos da COFINS, CPMF, CSLL e receita de concursos de prognóstico. Essas receitas financiam a saúde, assistência social e também a previdência. O déficit era fabricado ao confrontar apenas a arrecadação das contribuições dos empresários e trabalhadores com o pagamento dos benefícios.

 Porém, a realidade é outra. Somando toda a arrecadação e descontando os gastos, a Seguridade (que engloba a Previdência) é superavitária. No primeiro ano do governo Lula, 2003, o superávit foi de R$ 31,7 bilhões; em 2004, R$ 42,5 bilhões; em 2005, R$ 57,7 bilhões; no ano passado, R$ 47,9 bilhões. A manipulação nos números da Previdência também foi desqualificada pelo governo que, embora não contabilize recursos utilizados pela DRU, afirma que o quadro é outro. “Se a economia continuar crescendo no ritmo atual, o equilíbrio das contas será alcançado em 2008 e poderá durar mais 30 anos”, disse o ministro da Previdência, Luiz Marinho.

 AVANÇOS

 Além disso, o Fórum chegou a consensos importantes para o fortalecimento do sistema previdenciário brasileiro, como a criação do Conselho Nacional da Seguridade Social, a busca pela ampliação do seguro-desemprego, a manutenção da vinculação das pensões com o salário mínimo, entre outros (veja quadro ao lado).

 “Em primeiro lugar é bom ressaltar que o resultado do Fórum Nacional da Previdência demonstrou que foi correta a nossa participação e intervenção. Colocamos as nossas posições, não admitimos perda de direitos ou qualquer tentativa de retirada de direitos, mudamos o foco dos debates que estavam sendo feitos no interior do Fórum, demonstrando inclusive que há uma outra maneira de enxergar a questão da Seguridade Social, da necessidade de ter inclusão previdenciária, crescimento econômico, formalização dos trabalhadores, e é isso que vai garantir a sustentabilidade da Seguridade no futuro”, afirmou o presidente da CUT, Arthur Henrique.

 Para o tesoureiro da CGTB, Lindolfo Santos, o resultado do FNP foi positivo para os trabalhadores. “Não só reforçou nossa unidade em defesa dos direitos adquiridos, como também contribuiu para desmontar falsificações grosseiras que vinham sendo propaladas cotidianamente pela mídia, principalmente em relação ao suposto déficit da Previdência. Reafirmamos o conceito de Seguridade e caminhamos para garantir novas conquistas para os trabalhadores rurais e para os desempregados”, ressaltou.

 O documento final trás também declarações distintas dos empregadores e trabalhadores sobre os pontos que não houve consenso. Os empresários defenderam a idade mínima de 67 (H) e 62 (M) anos para a aposentadoria e a alteração das regras para “afetar a atual geração de contribuintes”, instituindo já idade mínima de 63 (H) e 58 (M), aumentando gradualmente até os 67 e 62 anos.

Já os trabalhadores, defenderam o crescimento da economia, a formalização do mercado de trabalho e o fim do fator previdenciário - mecanismo criado no governo Fernando Henrique que força os trabalhadores a se aposentarem com idade mais avançada para não perderem parte de suas aposentadorias.

 A bancada dos trabalhadores, também distribuiu um documento unitário em que defende o “respeito aos direitos adquiridos, a inclusão social e previdenciária pelo direito ao trabalho e pela eliminação da informalidade e a sustentabilidade da Previdência e da Seguridade Social, conforme as fontes de financiamento estabelecidas na Constituição Federal”.

 MEDIDAS

 Até o momento, o governo ainda não anunciou qual será a medida a ser tomada, ou seja, se irá encaminhar um projeto com as propostas consensuais, se não apresentará projeto nenhum para aprofundar mais o debate ou se encaminhará para o parlamento todas as propostas, incluindo os pontos sem consenso.

 Enquanto os trabalhadores defendem o respeito aos debates e às posições apresentadas pelas entidades, setores da mídia já iniciaram a campanha para tentar pressionar o governo a fazer o que nem Fernando Henrique conseguiu, isto é, cortar os direitos previdenciários.

 O mais gritante protesto foi feito pelo jornal “Estado de São Paulo”, que dispensa maiores apresentações, que chegou a “defender” o direito do presidente Lula de governar: “O eleitorado entregou a função de governar e de legislar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aos membros do Congresso e não aos integrantes de qualquer conselho consultivo. Seja qual for o desempenho do conselho, cabe ao Executivo a responsabilidade final de resolver se um projeto será enviado ao Parlamento e de redigir a proposta”.

 O mais novo e fiel “defensor” do governo também estimulou o “Executivo a assumir sozinho o custo político de um projeto de reforma”. Um tanto intrigante, para não dizer outra coisa.

 Sobre este ponto, é salutar fazer uma indagação: se tal reforma fosse boa para o país e para os brasileiros, por que existiria um preço a pagar?

 ALESSANDRO RODRIGUES

 

Fale conosco   cgtb@cgtb.org.br

55 11 3663 0473

Criado por:  Informática Rede Interativa  interativabrasil@terra.com.br      
   
Atualizado em 06/03/08 10:14:47