|
Discurso do
presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de
lançamento da Política de Desenvolvimento Produtivo: Inovar e Investir
para Crescer
Rio de Janeiro – RJ, 12 de maio de 2008
Meu caro
governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral,
Meu caro senador, presidente do Senado, Garibaldi Alves,
Quero
cumprimentar os meus companheiros ministros e ministras aqui presentes,
Quero
cumprimentar os companheiros governadores e agradecer, de coração, a
vinda deles aqui, porque foi um convite quase de última hora,
Quero
agradecer ao companheiro Jaques Wagner, da Bahia,
Companheiro
Jackson Lago, do Maranhão,
Eduardo
Campos, de Pernambuco,
José Serra,
de São Paulo,
Aécio Neves,
de Minas Gerais,
Cássio Cunha
Lima, da Paraíba,
Paulo
Hartung, do Espírito Santo,
Eduardo
Braga, do Amazonas,
Marcelo
Miranda, de Tocantins,
Quero
cumprimentar os demais companheiros, senadores e deputados aqui
presentes,
Cumprimentar
os vice-governadores, aqui representados pelo Pezão, do Rio de Janeiro,
e pelo Wilson Martins, que representa o governador do Piauí,
Companheiros
senadores e senadoras,
Companheiros
deputados e deputadas,
Quero
cumprimentar o presidente da Confederação Nacional da Indústria,
companheiro Armando Monteiro,
Quero dar os
parabéns e cumprimentar o professor Luciano Coutinho, presidente do
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social,
Quero
cumprimentar os demais companheiros que falaram aqui, da Embraer,
Feliz da
vida, Feijóo, pela combinação perfeita do seu discurso e do Armando
Monteiro, até pareciam dois dirigentes sindicais dos metalúrgicos ou
dois dirigentes da CNI, tal é a combinação de vocês,
Quero
cumprimentar o Gerdau,
Companheiros
e companheiras, o discurso é longo, a nominata também, mas quero dizer
duas coisas para vocês, antes de falar o meu discurso aqui. Certamente,
tem mais dirigentes sindicais aqui e devem estar se perguntando por que
o Lula escolheu o Feijóo para falar.
Primeiro,
porque hoje nós comemoramos um dia marcante na minha vida, na vida das
conquistas democráticas do Brasil e também porque foi o primeiro dia que
eu senti o peso de uma greve liderada por mim. Foi exatamente no dia 12
de maio de 1978 que, às 7h30 da manhã, eu recebi a notícia de que a
Scania-Vabis tinha parado. E foi também a primeira vez que eu fui
enganado, porque a Scania parou, eu fui para dentro da Scania,
e tinha um empresário sueco que presidia a
Scania, chamado Ladislau, e fizemos um acordo. Eu fui para uma
assembléia às 5h da tarde, convenci os trabalhadores a voltarem e
trabalhar, todo mundo voltou a trabalhar e eu me senti um verdadeiro
rei. Só que, quando eu virei as costas, o Mario Garnero era presidente
da Anfavea, a Anfavea se reuniu depois que os trabalhadores voltaram a
trabalhar, e deram uma dura na Scania – pelo menos essa foi a história
contada pela Scania – de que ela não poderia cumprir o acordo
feito comigo. No dia seguinte, 13 de maio, os trabalhadores entraram na
fábrica, a polícia cercou a fábrica, a chefia cercou os pavilhões da
empresa, nós não conseguimos retomar a greve, e eu, que tinha saído às
5h da tarde como herói, fui tratado como se fosse o traidor da Scania,
porque fiz os companheiros voltarem a trabalhar sem que tivesse o
acordo. Demorou 15 dias até conseguirmos ter uma paralisação dura na
Ford. Naquele tempo a Mercedes não conseguiu parar, a Volkswagen não
conseguiu parar, e o pessoal chorava porque não conseguia parar. Depois
de 15 dias nós fizemos o acordo, e a condição para que a gente voltasse
a trabalhar era fazer o acordo da Scania. Finalmente, depois de 15 dias,
nós fizemos o acordo e tudo voltou a ser paz no ABC Paulista.
Então, hoje é um dia muito
importante. Estarei indo às 19h para o Sindicato dos Metalúrgicos. Não
estarei com uma camiseta e com um bonezinho dizendo “hoje eu não estou
bom”, como era a marca do João Ferrador. Estarei com uma camisa dizendo
“hoje eu estou bem, estou feliz, porque as coisas estão acontecendo no
meu País”.
Quero dizer para vocês do
constrangimento que tem um presidente da República ao anunciar um
programa de desenvolvimento e dar a palavra à Petrobras. A dimensão dos
bilhões da Petrobras é de tal envergadura maior do que tudo o que o
Guido, o Miguel Jorge e o Luciano Coutinho falaram aqui, que eu penso
que vai ter algum momento na história do Brasil – se a Petrobras
continuar assim – que vai ter que ter eleição direta para presidente da
Petrobras e ele indicará o presidente da República, tal é a capacidade
de investimento.
Mas uma coisa importante que eu
queria ressaltar, companheiros e companheiras empresários, é que o que
disse o José Sérgio Gabrielli é um desafio de uma grandeza
incomensurável e nós, certamente, precisamos nos preparar para enfrentar
esse desafio. Se nós tivermos que fazer aqui no Brasil as plataformas,
as sondas, os navios que precisamos, meu querido Gerdau, a indústria
siderúrgica brasileira vai ter que fazer muitos e bons investimentos nos
próximos anos, a indústria naval vai ter que se preparar de forma
extraordinária, além do que nós temos que contribuir para preparar uma
mão-de-obra altamente qualificada para enfrentar esse problema. São
investimentos de uma magnitude, que a minha cabeça não consegue guardar
os números. É tanto bilhão... Vocês viram que o Guido apresentou 400
bilhões de um fundo garantidor “não sei para quê”. Só uma plataforma
precisa de 700 milhões, ou seja, não dá para financiar, não dá para
garantir a metade. Então, é uma dinâmica para a qual eu penso que o
Brasil precisa se preparar. Eu devo ter algumas reuniões com alguns
setores empresariais, talvez ainda nesta semana, porque nós temos
desafios importantes e decisões importantes a tomar, se queremos ou não
queremos dar o salto de qualidade que precisamos dar no Brasil.
No mais, companheiros e
companheiras, quero dizer aos governadores, aos senadores, aos deputados
que a presença de vocês aqui é muito importante, porque esse não é um
programa do governo do presidente Lula ou um programa para demorar três
anos. Na verdade, nós temos uma meta para três anos, mas o Programa é
para muitos anos e, portanto, é um programa que tem que ter seqüência, é
um programa que tem que ter continuidade. Eu acho extremamente
importante a presença de vocês, para que essa política não seja um corpo
estranho na vida de quem governa estados importantes, e que também estão
vivendo um momento de crescimento, eu diria, muito importante.
Ao senador Garibaldi e ao
companheiro Arlindo Chinaglia – que não pôde vir aqui porque está
recebendo o presidente do Parlamento Português – quero dizer que,
provisoriamente, algumas coisas desta política industrial terão que ser
enviadas ao Congresso como medida provisória, porque senão elas não
entrarão em vigor rapidamente, e nós poderemos, então, ter um retrocesso
ou um atraso na Política de Desenvolvimento Produtivo que estamos
fazendo aqui. Certamente, nós vamos contar com a compreensão dos
senadores e dos deputados, e certamente, como aconteceu nas obras do PAC,
o Congresso vai dar uma demonstração de competência e vai votar as
coisas com a rapidez que o Brasil precisa – não é o Presidente que
precisa.
Minhas amigas e meus amigos,
Hoje é um dia muito
especial para mim e, acredito, para todos nós. Estou seguro de que a
Política de Desenvolvimento Produtivo que estamos lançando agora dará
sustentação a um longo ciclo de investimentos produtivos no Brasil, com
ênfase na inovação, na competitividade, no apoio ao empreendedorismo e
no crescimento das nossas exportações.
Mais do que uma política
de governo, no dia de hoje estamos propondo ao País um compromisso entre
o setor público e o setor privado, entre o governo, os trabalhadores, os
empresários, os cientistas, enfim, entre todos os segmentos do povo
brasileiro.
Nosso País quer
recuperar a capacidade de criar e ousar, e por isso mesmo a Política de
Desenvolvimento Produtivo tem forte amplitude e ambições comparáveis às
de outras iniciativas, que em outras épocas ajudaram a transformar
economicamente o País, como o Plano de Metas nos anos 50 e 60 e o
Segundo PND nos anos 70.
Aqui um parêntese para
homenagear duas pessoas: primeiro, um dos PND’s está aqui, que é o
ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso, e também o nosso
companheiro Luiz Furlan, que fazia parte da equipe... No meu governo a
gente divide as discussões entre equipe produtiva e equipe
macroeconômica, e durante muito tempo nós brigamos para que a gente
pudesse hoje estar lançando este Programa. Portanto, Furlan, a sua
presença aqui nos envaidece muito, porque você tem parte no que nós
produzimos. E ao companheiro Miguel Jorge, meus parabéns pela
competência da equipe que você montou para que nós pudéssemos...
Certamente, o João Paulo dos Reis Veloso tinha mais facilidade do que
nós porque, naquele tempo, 60% do PND estava escorado em empresas
públicas brasileiras, o Estado era muito mais forte do que hoje, o
presidente tinha muito mais poder do que hoje, e eu preciso ter mais
flexibilidade do que vocês precisavam naquela época. De qualquer forma,
há um fato histórico relevante.
Mas, se nos inspiramos no passado, não é
para repeti-lo. Temos os pés bem plantados no presente e estamos com os
olhos voltados
para o futuro. Queremos responder, de forma pragmática e criadora, ao
nosso grande desafio contemporâneo: assegurar uma trajetória de
crescimento sustentável para o Brasil numa economia global competitiva e
aberta.
Minhas amigas e meus
amigos,
Queremos consolidar a
vitória do Brasil sobre 25 anos de incertezas, de crescimento volátil e
baixo. Durante 25 anos, paramos de planejar e de acreditar que nossos
filhos e netos poderiam ter uma vida melhor do que a nossa. Foram 25
anos de marasmo e apatia, que impediram os empresários de investir
vigorosamente em novas fábricas e criar novos empregos na escala
demandada pelo nosso imenso desafio social. Foram 25 anos de descrença
nas nossas próprias forças.
Felizmente, estamos
virando essa página. Mas nem por isso queremos apagá-la da nossa
história. Afinal, nesse período aprendemos muito e a duras penas.
Aprendemos que não queremos inflação. Aprendemos que queremos um governo
com suas contas em dia. Aprendemos que as empresas não podem ser
eternamente ineficientes e viver às custas de subsídios e protecionismos
descabidos.
Confirmamos a convicção
de que a economia não pode se assentar no trabalho informal, de baixa
qualidade e de baixos salários. Confirmamos também a certeza de que as
microempresas são criadoras de oportunidades de emprego e renda e que é
necessário espraiar o desenvolvimento produtivo para regiões menos
favorecidas.
E estamos aprendendo que
respeitar, proteger e valorizar o meio ambiente pode assegurar um futuro
decente para os nossos filhos e oportunidades para o nosso
desenvolvimento.
Em suma, tiramos muitas
lições desses 25 anos em que atravessamos, com enormes sacrifícios, o
deserto da estagnação. Mas agora vivemos um novo momento. Chegou a hora
de reforçar as bases do nosso futuro. Investir, inovar e exportar são as
nossas metas nesse momento de virada.
São metas claras e
factíveis para os próximos 3 anos, organizadas em programas com um
sistema de gestão que busca a eficácia e a prestação de contas. São
metas baseadas na compreensão das transformações em curso no cenário
mundial e inspiradas em uma visão de longo prazo. Constituem orientações
estratégicas que, espero, possam servir para o desenvolvimento do Brasil
nos próximos 10, 15 ou quem sabe, 20 anos.
Minhas amigas e meus
amigos,
A aceleração das
mudanças tecnológicas, que vêm produzindo impactos revolucionários sobre
a economia mundial nas duas últimas décadas, é tão evidente que dispensa
demonstração.
O investimento contínuo
e crescente em novas fábricas, em inovação tecnológica e na criação de
novos produtos é condição necessária para o sucesso de qualquer empresa
e de qualquer país. Mas a disposição empresarial para investir depende
de ações do governo, de um ambiente estimulante no País, de uma demanda
em expansão, de confiança nas instituições, de expectativas de futuro
positivas.
Nos últimos tempos
conseguimos firmar as condições para que a disposição de investir
voltasse a se manifestar de forma robusta no Brasil. Pelo lado da
demanda, temos um mercado interno em franca expansão, com a inclusão de
novos consumidores e a queda da desigualdade de renda, ao qual se soma
um mercado externo ávido pelos principais itens de nossas exportações.
Pelo lado das empresas,
o cenário também é propício: emprego em expansão, lucratividade em
ascensão, ganho de produtividade, endividamento limitado e perspectiva
otimista de mercado.
Mas, nos últimos anos,
também conquistamos algo que não se mede em números, mas é decisivo para
retomarmos o caminho do desenvolvimento: o País voltou a confiar em si
mesmo.
Nenhuma nação do mundo
conseguiu se desenvolver de forma vigorosa sem acreditar nas suas
próprias forças, sem despertar suas energias adormecidas, sem ser
estimulada pela esperança de um mundo melhor.
Hoje, nosso povo voltou
a sonhar e a olhar o futuro com a cabeça erguida. Este é o cimento da
auto-estima nacional. Sem auto-estima não há projeto que possa
galvanizar o imprescindível sentimento de construção do futuro.
Vejo a sociedade
brasileira despertando. Vejo nosso povo olhando para a frente com
otimismo. Vejo o sistema democrático em pleno funcionamento. Vejo as
instituições públicas se aperfeiçoando.
A política econômica é
firme e aponta com clareza na direção de metas macroeconômicas
sustentáveis. Além do mais, estamos atacando as deficiências do País nas
áreas de educação, infra-estrutura, ciência e tecnologia, saúde e
agricultura. O Brasil está vivendo um novo momento, um momento de
inflexão e de transformação.
Minhas amigas e meus
amigos.
O
mundo também está passando por importantes mudanças. E é preciso
entendê-las para afastar riscos e aproveitar oportunidades.
O
atual contexto internacional é desafiador para o Brasil. No plano
político, a multipolaridade vem se impondo num mundo marcado pela
crescente diversidade de interesses.
No
plano econômico, estamos assistindo à emergência de novos mercados e ao
começo do fim do crescimento global puxado pela demanda do consumidor
norte-americano. Cresce, em contrapartida, a importância das maiores
economias dos países em desenvolvimento. Há indicadores de que esses
países – entre eles, o Brasil – serão responsáveis por metade da taxa de
crescimento da economia mundial em um futuro bem próximo.
Essa tendência já tem forte impacto na realidade atual. A maior lição da
atual alta dos preços internacionais de energia, de commodities e
de alimentos é que ela resulta da incorporação de novos consumidores aos
mercados e do desenvolvimento de grandes países antes considerados
pobres.
Há
mais chineses comendo. Há mais indianos comendo. Há mais africanos
comendo. Há mais latino-americanos e brasileiros comendo. Isso é muito
bom e não tem volta atrás.
Alguns se assustam com esse fenômeno. O Brasil, não. Temos terras
férteis, temos sol, temos tecnologia, temos força de trabalho, temos
capacidade empresarial e agricultura familiar para responder a esse
desafio. Não estamos diante de um risco, mas de uma oportunidade, e não
pretendemos desperdiçá-la.
As expectativas de
futuro no Brasil também são positivas por outras razões. Ao contrário de
outros casos, nosso País tem um sistema democrático consolidado e está
marcado por um forte sentimento de unidade nacional. Sabemos combinar
diversidade com harmonia cultural, religiosa e étnica.
Este é também um País
onde as fronteiras de expansão produtiva ainda não estão esgotadas.
Mesmo nossa face mais negativa pode ser entendida como oportunidade: a
desigualdade. Se bem atacada, como nos últimos anos, resulta em novos
cidadãos, em novos consumidores, como nos provam o acerto do Bolsa
Família e das demais políticas sociais.
Minhas senhoras e meus
senhores,
A
geração e a difusão aceleradas de novas tecnologias, principalmente as
tecnologias de informação e comunicação, introduzem novos produtos com
preços cada vez mais baixos, oferecendo mais possibilidades de acesso a
bens e serviços, bem como a disseminação de informações e conhecimentos
para toda a população mundial.
Neste contexto, como tenho defendido insistentemente, os acordos
multilaterais necessitam ser retomados, mas não em bases tradicionais.
Temos defendido nossos interesses nas mesas de negociação de modo
afirmativo, mostrando como são prejudiciais as regras atuais do comércio
internacional. Elas só beneficiam os países desenvolvidos, que continuam
aferrados a posições insustentáveis, como os enormes subsídios e o
protecionismo para a agricultura.
Avalio que o cenário de preços agrícolas e das
commodities minerais, em alta, estará ajudando a causa dos países em
desenvolvimento que possuem grandes reservas de recursos naturais, como
o Brasil. Estou seguro de que, nessas condições, poderemos cumprir com
sucesso uma forte agenda de expansão produtiva e inclusiva.
Em
particular, estamos diante de uma forte expansão da demanda de
alimentos, que multiplica as oportunidades para a nossa agricultura,
tanto empresarial como a familiar e, concomitantemente, temos pela
frente o desafio de responder à expansão sustentável das bioenergias e
biocombustíveis. Não preciso dizer que para o Brasil, cujo potencial
agrícola e mineral é extraordinário, trata-se de uma magnífica
oportunidade.
As
empresas e os centros de pesquisa brasileiros são destaques de
competitividade e inovação em vários campos. A agropecuária – e aqui
quero prestar minha homenagem à Embrapa, referência mundial na
agricultura tropical –, as indústrias de celulose e de energia, a
mineração, a siderurgia, entre outras, têm diante de si um futuro
promissor, no Brasil e no exterior. Basta que sigam estratégias
conseqüentes e persistentes. Neste contexto, reitero que é de interesse
do Brasil apoiar o desenvolvimento produtivo da América Latina, do
Caribe e da África.
Nos
países industriais avançados, o investimento em conhecimento e na
inovação descortina, continuadamente, novas promessas científicas e
tecnológicas. Uma progressiva convergência de novas tecnologias,
principalmente nas áreas das tecnologias cognitivas e da informação, das
biotecnologias e das nanotecnologias, vem criando novos mercados e
modificando as estruturas dos mercados existentes.
Mas
esse processo não beneficiará automaticamente o Brasil. As políticas dos
países desenvolvidos são orientadas, como não poderia deixar de ser, por
seus interesses nacionais, o que tende a dificultar a transferência de
tecnologia para os países em desenvolvimento, inclusive em campos de
alto interesse social. Não podemos perder isso de vista, e temos de nos
preparar para enfrentar essa realidade.
O
Brasil tem reais possibilidades de ocupar a liderança em segmentos
importantes de tecnologias avançadas. Cito alguns: o complexo industrial
da saúde, da aeronáutica e das energias – inclusive a nuclear –, a
agricultura, a indústria de bens de capital, a indústria automobilística
e as tecnologias da informação e comunicação. Em todas essas áreas temos
grandes ativos e conquistas, mas nossos competidores são muito fortes.
Por isso, o Brasil não pode deixar de redobrar esforços para se
aproximar das fronteiras da ciência e da inovação tecnológica, visando a
participar ativamente do intercâmbio de conhecimento de tecnologias
avançadas.
Por
esta razão, a inovação empresarial merece prioridade e, para sustentar o
investimento, a indústria de bens de capital recebe atenção especial da
Política de Desenvolvimento Produtivo.
Minhas amigas e meus amigos,
É
muito importante lembrar que o meio ambiente entrou com força na agenda
internacional e na agenda de cada país. Há uma preocupação crescente com
as mudanças climáticas resultantes do efeito estufa. Todos os países
estão chamados a tomar medidas para reduzir a emissão de dióxido de
carbono, através da utilização mais intensa de técnicas de conservação,
e também da adoção das energias renováveis, das bioenergias e dos
biocombustíveis.
Para o Brasil, reitero, trata-se de uma extraordinária oportunidade, mas
para aproveitá-la, precisamos nos preparar. Temos que enfrentar
preconceitos arraigados e lobbies poderosíssimos nos países
desenvolvidos. Eles só serão vencidos com um intenso debate público, com
a crescente organização dos mercados e com o estímulo à participação de
outras economias em desenvolvimento. Convoco todos os brasileiros, sem
distinção, para essa batalha. Estou seguro de que vamos vencê-la. Os
lobbies, por mais poderosos que sejam, não serão capazes de deter os
biocombustíveis.
Abençoado por Deus, o Brasil dispõe, ainda, de um notável potencial de
desenvolvimento no setor de petróleo e gás natural, graças às novas
descobertas na camada pré-sal. Por isso mesmo, a Política de
Desenvolvimento Produtivo terá como uma de suas missões maximizar a
capacitação tecnológica e a competitividade dos vários setores
produtores de equipamentos e sistemas que fortaleçam as cadeias de
etanol, de petróleo e gás e de biodiesel.
Minhas amigas e meus
amigos,
Aqui, um parêntese importante. Eu ia trazer aqui, mas não trouxe...
Quando fui inaugurar a fábrica lá em Paulínia, eu tinha pedido para que
a Braskem me desse de presente, para eu levar nas minhas viagens pelo
mundo afora, o primeiro protótipo de um carro produzido com material de
plástico, não-derivado do petróleo, mas derivado do etanol.
Certamente, o José Sérgio Gabrielli não gostou muito. Mas eu quero
dizer, meu caro Emílio, que eu recebi o protótipo e não o trouxe aqui
agora, porque é um protótipo internacional. É um protótipo que eu quero
levar aos debates internacionais, e no dia 3 de junho já o estarei
levando para um debate da FAO, que eu vou fazer, para mostrar que o
Brasil não irá mudar o seu comportamento, de forma alguma, qualquer que
seja a crítica que nos façam. Para cada crítica, duas respostas
convincentes.
Minhas amigas e meus
amigos,
Este é um momento
histórico para o Brasil. Se
tivermos competência para capturar as novas oportunidades oferecidas
pela evolução da economia global e se, paralelamente, soubermos retomar
o desenvolvimento competitivo de nossa diversificada base industrial e
de serviços com firme dedicação à inovação, poderemos construir um ciclo
longo e duradouro de desenvolvimento econômico e social.
A
nossa democracia consolidada, a nossa estrutura produtiva com potencial
de se tornar cada vez mais eficiente, o nosso amplo mercado interno –
tudo isso diferencia o Brasil no contexto internacional e nos coloca em
posição favorável. É hora, portanto, de assentar as bases de um futuro
próspero e socialmente decente.
Em
termos históricos, a grande novidade do início do século XXI no Brasil é
a crescente inclusão política, social e produtiva de grupos sociais
menos favorecidos.
Nos
últimos anos, graças ao controle da inflação, ao Bolsa Família e a
outros programas sociais, ao aumento real do salário mínimo, à
recuperação da economia e ao forte crescimento do crédito, 10 milhões de
brasileiros deixaram a miséria. Outros vinte milhões de homens e
mulheres, antes situados nas classes D e E, ingressaram na classe C, uma
nova classe média. Sob o impacto da criação desse novo mercado de
massas, a economia brasileira deu um salto à frente e mudou de patamar
de crescimento.
Que
esse processo continue reduzindo de forma persistente e firme a pobreza
e as desigualdades sociais e regionais. Que nas próximas décadas
construamos uma sociedade aberta à ascensão de todos. Assim, o Brasil
deixará de ser definitivamente o país do berço e do sobrenome, para se
converter no país do mérito e da igualdade de oportunidades.
Minhas amigas e meus amigos,
Mesmo depois de 25 anos de incertezas, de choques e de baixo
investimento, nossa estrutura econômica nos setores industriais e nossas
cadeias produtivas conseguiram sobreviver.
É
verdade que muitas empresas pereceram. Mas, a grande maioria resistiu
bravamente, empreendendo uma revolução silenciosa, de busca de qualidade
e de produtividade.
Esta capacidade de resistência e de sobrevivência da empresa brasileira
deve ser motivo de orgulho para todos nós. E é um dos mais valiosos
ativos que temos para construir o nosso futuro, o nosso desenvolvimento
produtivo.
Agora é hora de avançar.
O Brasil, que recebeu o grau de investimento há poucos dias, é hoje um
porto seguro para o empreendedor, para o investimento e para a inovação.
A Política de Desenvolvimento Produtivo chega nesse momento, justamente
para mobilizar todas as nossas energias para uma arrancada rumo ao
futuro.
Vamos ampliar o investimento e a produção
para atender ao mercado interno em expansão, para reduzir a desigualdade
e para ampliar o acesso do brasileiro aos bens e serviços de qualidade
de uma sociedade bastante contemporânea.
Vamos desenvolver competências duradouras,
vamos fomentar uma infra-estrutura de pesquisa que atraia nossa
juventude para a ciência, e a empresa privada para a inovação. É
importante lembrar do PAC da Ciência e Tecnologia, quando destinamos 41
bilhões de reais, e todos nós precisamos ajudar o companheiro Sérgio
Rezende a gastá-los bem. Eu sei que ele até já montou a equipe de
fiscalização, e eu acho importante a gente saber que temos 41 bilhões.
Precisamos desovar corretamente esses 41 bilhões para fazer a revolução
tecnológica que tanto precisamos.
Vamos fortalecer nossa inserção
externa com empresas industriais e de serviços de classe mundial:
empresas internacionalizadas, marcas reconhecidas, produtos de
qualidade. Aqui eu quero dar um aviso. Em Angola, há algum tempo –
alguns empresários aqui, estavam comigo em Angola – fiz uma crítica,
dizendo que era preciso que as empresas brasileiras perdessem o medo de
se transformar em empresas internacionais. Eu me lembro que a manchete
de um jornal, em São Paulo, era a seguinte: “Lula critica empresários”.
Na verdade, eu tinha feito um desafio que, graças a Deus, está sendo
levado a sério e muitas empresas brasileiras hoje estão comprando ativos
em outros países, mostrando que era uma política acertada, sobretudo se
a gente olhar países como o Canadá, onde a Vale do Rio Doce já é a
segunda empresa. Quem imaginava que o Brasil seria o segundo maior
investidor estrangeiro no Canadá, em toda a América Latina, na África? E
temos muito mais coisas para fazer, basta que nós acreditemos.
Repito: atravessamos o deserto da
estagnação. A terra fértil já está à vista. Só depende de nós alcançá-la
e conquistá-la; só depende da nossa união, do nosso trabalho, da nossa
determinação; só depende da nossa capacidade de enfrentar os verdadeiros
problemas do País, deixando de lado as miudezas, o medo do novo e os
preconceitos; só depende da nossa confiança em nós mesmos, no nosso povo
e no nosso País.
Vamos, todos juntos – governo, empresários,
trabalhadores, técnicos, cientistas – enfrentar esse desafio. É isso que
nós, do governo, queremos. É isso que queremos de vocês e, certamente, é
isso que o Brasil quer de todos nós.
Muito obrigado e que Deus os abençoe.
|