Grupos estrangeiros acirram cobiça para
controlar Cesp
Entre as cinco empresas habilitadas para a leiloata
marcada para o dia 26, quatro são alienígenas
Cinco empresas entregaram documentação na Bovespa
se credenciando a participar do leilão da Companhia Energética de São Paulo
(CESP), marcado para o dia 26: Suez (franco-belga), Alcoa (norte-americana), EDP
(portuguesa), Neonergia (espanhola) e a CPFL privatizada.
Caminha, assim, o governo estadual para a repetição
de todos os erros cometidos nas privatizações anteriores, desde a Excelsa, em
1995. Em outras palavras, um enorme retrocesso em todos sentidos; para o Estado,
porque perde ativos a preço de banana; para o povo, porque sofre com as tarifas
extorsivas e com os serviços de péssima qualidade; e também para indústria, que
já amargou com a falta de investimento no setor pelas empresas privatizadas.
Primeiro, tem a subavaliação. Na audiência pública
de 15 de janeiro, na Bovespa, os próprios privatistas anunciaram que os ativos
da CESP totalizam US$ 10,8 bilhões, ou seja, R$ 18,079 bilhões na cotação do dia
12. Em uma Representação feita ante o Ministério Público Estadual, o Sindicato
dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) demonstra, inclusive com
documento obtidos na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que a CESP
teria a receber R$ 11.987.946.902,60 caso optasse pela não prorrogação da
concessão da usina Porto Primavera – que terminaria em 21/05/2008 -, em função
de seus ativos ainda não ter sido amortizados. Essa era intenção inicial,
comunicada à Aneel em junho de 2006. Foi mudada a partir do momento em que o
governo paulista resolveu privatizar a Companhia. No entanto, esses R$ 12
bilhões nem entraram na conta de chegar, feita para a definição do preço de
venda da CESP em R$ 6,6 bilhões.
Para o presidente do Sindicato dos Engenheiros no
Estado de São Paulo (Seesp), Murilo Pinheiro, “o processo de privatização do
setor elétrico contém um equívoco de origem – a idéia de que um serviço
essencial, assim classificado constitucionalmente, pode ser tratado como
mercadoria. Essa é provavelmente a fonte de todos os desmandos que se
verificaram, tendo como ponto notável um racionamento de energia em plena
entrada do século XXI”.
Para se viabilizar a privatização no setor
elétrico, foi feito a chamada “desverticalização”. A CESP, por exemplo, foi
fatiada em cinco: as geradoras CESP Paranapanema, CESP Tietê e CESP Paraná; a
distribuidora Elektro; e a transmissora CTEEP. Tirante a CESP Paraná que agora é
a bola da vez, as outras foram todas repassadas a empresas estrangeiras. A
Elektro foi tomada pela Enron (EUA), em julho de 1998; a Cesp Parapanema, pela
Duke Energy (EUA), em julho de 1999; a Cesp Tietê, pela AES (EUA), em outubro de
1999; e a CTEEP, pela Interconexión Eléctrica (Colômbia), em junho de 2006. Não
que o governo estadual não tenha tentado, mas a CESP Paraná só não foi
privatizada por uma série de fatores. Em 2000, porque o Ibama impediu o
enchimento do lago de Porto Primavera; em 2001, além do racionamento de energia,
o leilão foi impedido por várias ações de sindicalistas e parlamentares.
Além do apagão de 2001, citado pelo presidente do
Sindicato dos Engenheiros, a privatização no setor elétrico contemplou os
usuários com tarifas de escorcha. Em dez anos (1997/2007) na região Sudeste,
enquanto a inflação acumulou 93,53%, o aumento das tarifas de energia elétrica
totalizou 327%, em média.
Apesar dos cofres abarrotados com essas tarifas, as
empresas privatizadas não investiram à altura das necessidades do país,
contribuindo para a estagnação econômica que o Brasil viveu, até o presidente
Lula implementar uma política de crescimento acelerado. Evidentemente, a
privatização no setor não é um caso isolado, mas parte de um todo que foi o
desmonte do Estado, que redundou no “pior desempenho econômico”, nas palavras do
presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann.
“Por meio da privatização seria possível reduzir o endividamento público e
ampliar o gasto social, deixando ao setor privado o comando da expansão
econômica. Não apenas foi registrado o pior desempenho econômico, com taxas de
variação do produto praticamente equivalente às da população, indicando a
estagnação da renda per capita, como o endividamento cresceu, ao contrário do
gasto social. O desemprego, por consequência, teve no esvaziamento do Estado uma
fonte importante de expansão”, diz o economista no livro “A Década dos Mitos”,
ao referir-se à barbárie neoliberal dos anos 1990.
O encaminhamento para a privatização da CESP é o
corolário do desmonte de um sistema que começou a ser estruturado na década de
50, período de forte expansão industrial. Ao longos dos anos, transformou-se em
símbolo de qualidade e eficiência em geração, transmissão e distribuição de
energia, estando entre as melhores empresas do Brasil. E que o governo do Estado
resolveu repassar para alguma empresa estrangeira - que já estão de prontidão -
mesmo que a preço vil.
VALDO ALBUQUERQUE