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Pochmann: biocombustível é estratégico e precisa ser protegido da
desnacionalização
CARLOS ALBERTO DE ALMEIDA*
Caso o Brasil não crie uma empresa pública
de energia renovável para fazer o enfrentamento com o mercado global que
tende a se concentrar, nós seremos inevitavelmente esmagados e o setor
será internacionalizado. O alerta é do economista Márcio Pochmann,
presidente o IPEA ( Instituto de Política Econômicas Aplicadas), um
organismo estatal que está neste exato momento levando adiante um
conjunto de estudos sob o nome sugestivo de “Repensar o Brasil”.
“O Brasil vai ter que adquirir capacidade,
que não tem no dia de hoje, para fazer parte de neste mercado global de
energia”, explica Pochmann, lembrando que embora o país disponha de
grandes empresas produtores de biocombustíveis, especialmente na região
centro-sul, até com tecnologia de ponta, sua capacidade é relativamente
pequena para fazer o enfrentamento com os poderosos oligopólios que
dominam o mercado global de energia. “Não vejo outra alternativa que a
concentração do setor em torno de uma empresa pública de energia
renovável”. Para Pochmann., “se não traçarmos uma estratégia clara e
competente mais dia ou menos dia seremos inapelavelmente
internacionalizados”, lembrando que o exemplo da Vale do Rio Doce,
criada como empresa estatal na Era Vargas, deve ser considerado para que
como país revisemos nossos planos e nossas políticas.
O presidente do IPEA concorda que momentos
de crise mundial podem também representar oportunidades para que países
com grande potencial de crescimento, caso do Brasil, reposicionem-se
política e estrategicamente, e aproveitem as crises para crescer. “Foi o
que fizemos na crise capitalista de 1929, pois a revolução de 30
representou uma inversão de políticas estratégicas, priorizando o
desenvolvimento nacional e deslanchando o mercado interno”. O mesmo
exemplo teria ocorrido quando da crise do petróleo em 1973, quando o
Brasil elaborou o PND e no mesmo período constituiu o Pró-Alcool. “Na
crise atual, também há oportunidade para o Brasil se colocar”,
ressaltando que agora, no segundo governo Lula está sendo reorganizada
uma maioria política para dar sustentação à elaboração de um pensamento
estratégico de longo prazo.
Política econômica de Vargas nos levaria
a ser grande potência
Pochmann desenvolveu estudos que revelam que
se o Brasil tivesse mantido a política econômica da Era Vargas, hoje
teria a terceira maior economia do mundo. “O Brasil foi o segundo país
do mundo que mais cresceu no período compreendido de 1890 a 1980. Este
crescimento produtivo nos retirou da posição de sermos a 56ª economia do
mundo para , em 1980, nos tornarmos a oitava maior economia do mundo. E
isto foi feito pela persistência e a disciplina dos que nos
antecederam, que possuíam uma visão do Brasil”, explica.
Politicamente, a Revolução de 30 levou o
Brasil a construir uma nova maioria que tinha por meta superar o Brasil
rural, empreender o desenvolvimento nacional e expandir o mercado
interno. “Foi uma trajetória de sucesso do ponto de vista da expansão
das bases materiais da economia nacional. Evidentemente, vieram também
os problemas porque o país não fez as reformas clássicas do capitalismo
como a reforma agrária, a reforma tributária e a reforma urbana”,
complementa. Lembra que por não ter feito também estas reformas, o
Brasil continua sendo um país onde os ricos não pagam impostos e que
ainda não fez as reformas do bem-estar-social Alguns segmentos foram
muito mais privilegiados do que outros”, reconhece.
No entanto, Pochmann calcula, baseado nos
estudos que fez, que se tivesse sido mantida a mesma política econômica
da Era Vargas hoje o Brasil com uma carga tributária bem menor, de 22
por cento do PIB, teria uma receita três vezes maior do que a que hoje
arrecada com um carga tributária de 27 por cento do PIB. Além disso,
sustenta que mantida linha varguista o Brasil poderia ter agora de 80 a
90 por cento dos trabalhadores sob a proteção da CLT, enquanto que hoje
tem apenas um terço dos trabalhadores em regime de trabalho formal da
CLT, também nascida na Era Vargas. A esta altura da entrevista Pochmann
lembra Celso Furtado e repete o economista já falecido que em 2004
afirmou que “nunca estivemos tão longe de ser o país que poderíamos
ser”.
A nova dependência
Pochmann aponta crise da dívida externa em
1980 - imposta pela oligarquia financeira mundial - como o fator
político determinante para a desconstrução daquela maioria política
desenvolvimentista organizada pela Revolução de 30, quando a prioridade
da política econômica passa a ser o controle da inflação. “O Brasil dos
anos 70 e 80 tinha um modelo de desenvolvimento baseado nas empresas
estatais que produziam tecnologia. Era um tripé, o capital externo, o
capital nacional e o setor produtivo estatal. Mas, o capital externo não
trouxe produção de conhecimento, isto foi feito no setor estatal.
Petrobrás, Telebrás, Mineração, Vale do Rio Doce, tudo vem da visão
estratégica montada lá atrás, na Era Vargas”, destaca. Com a crise da
dívida externa nos anos 80 surge a visão equivocada que tem como lema
quanto menos estado, maior seria o setor privado. “Nada disso aconteceu.
A redução do estado resultou em menor setor privado nacional, a saída do
estado expandiu o capital externo”, destaca, lembrando que as 500
maiores empresas que atuavam no Brasil em 1980 eram, em dois terços de
empresas nacionais privadas ou estatais, uma situação que hoje se
modificou para termos apenas 50 por cento de capital nacional, enquanto
o capital externo avançou para dominar metade da economia brasileira.
“Transferimos 15 por cento do PIB para o capital internacional e criamos
uma nova dependência”, denuncia.
Condição que pode ser evidenciada ao se
analisar o setor de patentes. Enquanto nosso setor acadêmico e
tecnológico é responsável por 2 por cento da produção de conhecimento
científico internacional, temos apenas 0,2 por cento das patentes
mundiais, ao passo que países como China, Malásia, Índia, Coréia do Sul,
com forte participação do estado, aumentaram significativamente sua
participação nas patentes a nível internacional, argumentou o presidente
do IPEA, órgão que está coordenando um trabalho para uma nova política
estratégica para o Brasil sustentada nas novas condições políticas
surgidas no segundo governo Lula, o que explicaria a sua própria
presença na direção de entidade tão importante para o País.
* Presidente da TV Cidade Livre de Brasília
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