|
Defesa da nossa soberania se dá com forte presença do Estado na Amazônia
Publicamos
hoje os principais trechos de “A defesa de nossa soberania”, palestra do
general Marco Aurélio Costa Vieira, então comandante da Brigada de
Operações Especiais e atualmente chefe de gabinete do Estado Maior do
Exército Brasileiro, proferida na Assembléia de Deus de Campinas,
Goiânia, a convite do
diácono João Carlos Barreto. A palestra foi realizada em maio de 2005.
No entanto, as questões abordadas por ela são ainda mais candentes nos
dias de hoje do
que há três anos. Por essa
razão, a oferecemos para apreciação dos nossos leitores.
Publicado no jornal Hora do Povo
(25-06-08)
Euclides da Cunha já dizia: “A imensidão da
Amazônia é tão majestosa que de súbita inteligência humana não lhe
suporta o peso”. 56% do território nacional, cerca de 5 milhões e 100
mil km². Aí dentro nós temos 15 países da Europa. Apenas a Ilha de
Marajó é maior que a Bélgica. Nove soberanias compõem a Amazônia, o
Brasil e os vizinhos, 7 milhões de km² a Amazônia completa. São 5
milhões e 100 mil km² no Brasil, 1/20 da superfície terrestre, dois
quintos da América do Sul, 1/5 da água doce do mundo, 1/3 das florestas
tropicais do mundo - mais de 1/3 -, 3 fusos horários, distribuindo-se em
dois hemisférios, com o maior banco genético do planeta.
A vegetação é fundamentalmente de floresta
equatorial úmida, seu maior ecossistema. Entretanto, temos campos como
se fosse o pampa gaúcho, em Roraima e Rondônia, principalmente. O clima
é quente, e a temperatura varia entre 27ºC e 35ºC, com forte umidade.
Temos ouro, estanho, nióbio - 92% do nióbio do mundo se encontra aqui na
região de Seis Lagos, ou seja, todo o nióbio do mundo é brasileiro.
Uma observação do famoso barão Von Bismarck,
“Recursos naturais nas mãos de nações que não querem ou não podem
explorar deixam de se constituir em bens e passam a ser ameaças aos
povos que os possuem”, é uma advertência.
Temos cinco milhões e 100 mil quilômetros
quadrados e 12% da representação da população, cerca de apenas 2 mil
dólares de renda per capita, enquanto no Sul do País a média é quase
cinco mil dólares e 40 habitantes por km².
É necessário lembrar que depois do término
da Guerra Fria - onde havia uma bipolaridade entre os países chamados
aliados da OTAN e os países do pacto de Varsóvia -, com o fim da
bipolaridade instituiu-se uma chamada globalização. Esta globalização
desviou o eixo de confrontação estratégico que era basicamente
Leste-Oeste e passou a acontecer uma confrontação Norte-Sul,
fundamentalmente pobres versus ricos, primeiro x terceiros mundos.
ONGs
Essa confrontação trouxe uma tendência:
primeiro o enfraquecimento do chamado Estado-Nação. Então, não interessa
mais aos países do primeiro mundo uma nação forte. Quanto mais as
fronteiras estiverem dissolvidas, mais fácil entram e saem a moeda, o
dinheiro e o poder. Portanto, a noção de soberania foi deteriorada.
Passou-se a ouvir muito falar em curdos, yanomamis, e aparecem as ONGs
(Organizações Não-Governamentais) que são atores bastante eficientes
nessa nova estratégia.
Além disso, a nova ordem mundial determina
que a soberania deve ser limitada e assim é na Europa de hoje, em que a
defesa não é mais de um país. A defesa deve ser compartilhada. Se
atacarmos um país da Europa todos os outros defenderão a Europa, e assim
é com os signatários da OTAN.
A tendência da nossa década é: intervenções
armadas, persistem as possibilidades de guerras, com ou sem o patrocínio
da ONU, notadamente a serviço dos interesses das grandes potências, e
não se cumpre resolução da ONU a não ser que interesse para o próprio
país. Para se ter uma idéia, Israel tem 33, 34 resoluções da ONU nas
costas e não cumpre nenhuma. Por que Israel não cumpre e os Estados
Unidos não fazem nada? Agora, imaginemos, por exemplo, se a Coréia não
cumprir, ou o Irã não cumprir uma resolução da ONU.
Desta nova globalização, temos a chamada
unipolaridade, ou seja, o único país xerife do mundo é os Estados
Unidos, e existe uma tendência para uma tripolaridade, difícil de
acontecer porque a Europa carrega às costas a África e a Ásia ainda está
muito dividida - mas a princípio é um futuro que se pode vislumbrar, ou
seja, três grandes pólos de poder no mundo.
Entretanto, o espaço vital americano vai ser
sempre esse aqui. O americano raciocina com a América, com todo o espaço
vital da América, e como é que se desenvolve esse espaço
geopoliticamente. Vamos raciocinar macro, pensando enorme: o espaço
geoestratégico do Atlântico Sul é a África e, praticamente, o Brasil. No
Atlântico Sul, a não ser a Argentina, é do Brasil praticamente toda a
costa face à África. Neste espaço marítimo temos todas as ilhas, e daí
são plataformas para qualquer tipo de invasão, ataque, qualquer tipo de
ameaça militar. Temos aqui pistas de pouso, pistas, por exemplo, aqui no
Suriname, de cinco mil metros, na Guiana, de três mil metros. Eu visitei
essas pistas, estão no meio da floresta, quem as construiu foram os
americanos - ofereceu-se gratuitamente ao país e o país aceitou, uma
pista de três mil metros, por exemplo, aqui em Porto Esperança. Para que
serve uma pista de três mil metros no meio da selva? Para uso da Varig,
é que não é.
A isso chama-se aprestamento estratégico.
Ali descem aviões militares, e uma pista de dois, três mil metros, é
capaz de receber uma, duas brigadas rapidamente, então. Por isso, os
americanos dizem hoje que podem atuar em qualquer parte do mundo em
menos de 24 horas, porque eles têm uma divisão leve, situada no Sul dos
Estados Unidos.
Profissionalmente, eu digo, qual é a
principal ameaça à nossa Amazônia? Principalmente a ausência do Estado.
Lá, é pequena ou nenhuma a presença do Estado. Assim como a
possibilidade de que as ONGs atuem livremente no nosso território é o
que se chama de satanização do Brasil. O Brasil está errado sempre.
Errado porque não consegue controlar o contrabando, os incêndios, porque
não consegue desenvolver sustentavelmente a região, ou seja, não há como
não satanizar o país que não cuida dessa riqueza enorme que é a
Amazônia. A satanização promove um ambiente propício à intervenção
futura.
A intervenção pode ser direta ou indireta.
Eu diria que a indireta já acontece, principalmente por alegações
ambientais, indígenas, ilícitas, ou por causa do terrorismo. Será que
estou forçando a situação, ou a ameaça da cobiça sobre a Amazônia é
verdadeira? Será retórica ou realidade? Busquemos um pouco o passado: em
1750, com o tratado de Madri, o rio Amazonas já tinha uma
internacionalização reivindicada; em 1817, um capitão chamado Mathew
Perry, que era geógrafo, apresentou um documento ao Congresso dos EUA,
relatando que a Amazônia podia receber 600 milhões de habitantes; em
1862, o general Watson, ministro dos EUA, em nome do governo americano
sugeriu ao imperador Dom Pedro II, mediante memorial, a destinação da
Amazônia aos negros americanos. Em 7 de dezembro de 1866, o Brasil teve
que abrir o Rio Amazonas à navegação internacional porque precisava da
navegação internacional no Rio da Prata durante a guerra do Paraguai. Em
1948, agora já estamos na ONU, a Amazônia foi cogitada para abrigar o
país palestino: eles acabaram com a Palestina e queriam botar os
palestinos aqui. O presidente Dutra também recebeu proposta dos
americanos para que se inserisse na Amazônia o excedente populacional de
Porto Rico. Eles querem porque querem colocar uma população aqui que não
é daqui. Aí apareceu o famoso plano Hudson para a construção de um
imenso lago artificial que submergiria cerca de 1/3 da Amazônia
Ocidental até o chamado Projeto Jari, em 1971. A senhora Margareth
Thatcher, já agora em 1983, quando era primeira-ministra da Inglaterra,
declarou: “Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar as suas
dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas
fábricas”. O senhor Al Gore, então vice-presidente americano, disse o
seguinte: “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é
deles, mas de todos nós”. O senhor Valery, primeiro-ministro da França,
em 1989, disse: “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa”. E o
senhor John Major também primeiro-ministro da Inglaterra (estamos em
1992), disse: “As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei
ao que é comum de todos no mundo”. O Japão, agora em 2005, apresenta um
plano de redistribuição mundial no qual a Amazônia deveria receber os
excedentes populacionais do mundo.
Eles estão ensinando isso para as crianças:
podem ficar certos de que os Estados Unidos não deixarão os países da
América Latina explorarem e destruírem esse imenso patrimônio da
humanidade. Está aqui o patrimônio da humanidade, delimitado: isto é um
outdoor, um tenente nosso tirou essa foto em Nova York, na Broadway, na
Times Square. O cartaz eletrônico é uma fotografia do arquipélago das
Anavilhanas, no Rio Negro, e está escrito: “Share” (“compartilhe”).
Passam várias fotografias do Rio Amazonas, e o tempo todo:
“compartilhe”, “divida”, “use conosco”, “isso também é nosso”. Na
Broadway, sem voz, sem som, só foto e letreiro. Isto aqui é uma criança
yanomami hasteando a bandeira na área indígena Raposa Serra do Sol, no
ano de 2004. Vejam que não é uma bandeira brasileira, é a bandeira
yanomami, com a área da Raposa do Sol. Os índios yanomami têm um
escritório que é um consulado em Paris – então, eles já têm a língua
própria, têm território, já têm a bandeira, já têm consulado, o que
falta para os yanomamis se tornarem um país yanomami?
Vejamos a questão indígena: devemos integrar
ou segregar o índio? Demarcar reservas contínuas ou não? E a exploração?
Quem explora o que está na terra indígena? Eu não vou entrar nesses
aspectos, isso é papo para muita conversa. Mas, existem várias
justificativas antropológicas. Cito as razões humanitárias: temos
populações indígenas morrendo de fome, morrendo à míngua, e sem
remédios. Será que é interessante deixar essa população brasileira sem a
atenção humanitária por razões práticas? É praticamente impossível
impedir que uma população indígena não se aculture. Hoje temos índios
que são considerados não-aculturados, mas que já usam telefone celular e
têm D-20. Como vamos mantê-los sem aculturação? 11% do nosso território
é terra indígena, cerca de 60% em Roraima. Se somarmos todos os
territórios indígenas, vamos ter uma Bélgica, uma Alemanha, um Portugal,
uma Espanha. A maior reserva indígena canadense atribui a cada índio
cerca de 12 hectares. A maior reserva indígena americana atribui a cada
índio cerca de 18 hectares, que é muita terra. As reservas brasileiras
atribuem em média a cada índio cerca de 450 a 500 hectares.
Quanto às organizações não governamentais,
nós podemos dizer o seguinte: são cerca de cinco mil e seiscentas,
atuando nelas 10 mil estrangeiros, sempre com caráter pressupostamente
humanitário. Entram na lacuna deixada pelo Estado. Se não tenho comida,
roupas, educação, não posso tratar mal uma organização
não-governamental.
Um elemento entra aqui do Peru a pé, com
GPS, que é um aparelhinho que dá as coordenadas, até achar uma árvore de
mogno. Achou, ele pinta de amarelo, registra num caderno, depois volta
para o Peru. Em lá chegando, entrega para um sujeito, vende a listinha
dele, ganha uma grana, e aí um cara entra com um tratorzinho e vai
direto ao mogno, corta, grampeia, arrasta e leva para o Peru. Hoje
estamos sendo roubados em mogno em toda aquela extensão de fronteira do
Acre.
O comando militar da Amazônia engloba o
Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Aí está hoje o que chamamos de
ordem de batalha. Hoje nós temos mais de 23 mil homens, vamos chegar a
25 mil até 2006. Nós tínhamos em 1950 apenas mil homens. As únicas
estradas existentes na Amazônia são construídas pelo exército, pelos
batalhões de engenharia. As únicas!
RESISTÊNCIA
Nós temos que ter presença, ou ofensiva, ou,
se nós encontrarmos alguém muito superior, uma resistência. Temos
ameaças com poder muito superior. Nesse caso, nós desenvolvemos o que se
chama resistência, quem tiver dúvida do que é resistência lembre-se que
o Iraque está fazendo uma resistência padrão. A guarda de Sadam Hussein
tinha 30 mil homens que se prepararam para a resistência durante quase 3
anos. Os americanos pegaram, da guarda de Sadam, quase 1.000 homens.
Então, 29 mil estão lá fazendo a resistência - e a lei da resistência é:
todo dia, matar um, nem um dia sem que se mate um. Eles estão cumprindo
à risca, basta um, mas tem que matar um todo dia, e estão matando. Isso
é resistência. Os americanos perderam a guerra do Vietnã assim. Isso
promove o que se chama de dissuasão, ou seja, é muito arriscado para
qualquer inimigo, ele tem respeito por quem está lá, qualquer ameaça
custa muito caro, então ele é dissuadido. Resistência de longo prazo, e
para terminar vamos falar rapidamente sobre a Brigada de Operações
Especiais, que é o mais novo grande comando operacional do exército.
Por que nós escolhemos Goiânia para sediar a
Brigada? Primeiro, porque é uma capital central em relação ao País. Se
fixarmos uma ponta seca do compasso e girarmos mil quilômetros, temos
cerca de 63% da população brasileira englobada neste círculo. Se
aumentarmos o raio para 1.500 km, nós passamos para 92% da população.
Goiânia é uma cidade estratégica, está perto de Brasília, permite a
chamada concentração estratégica, temos dois aeroportos – Anápolis e
Santa Genoveva – e ainda temos outros aeroportos menores, que podem
auxiliar no desdobramento de tropas. Nós temos uma terceira companhia de
forças especiais em Manaus, o centro de instrução e operações especiais
no RJ e a brigada como um todo se encontra em Goiânia.
O que são Tropas de Operações Especiais? São
aquelas que estão prontas para cumprir uma grande variedade de missões,
em qualquer parte do País. Conclusão: é preciso uma estratégia de defesa
para a Amazônia, que ações governamentais promovam a integração ao
restante do País, conferir a Amazônia status distinto do restante do
País, e incisiva oposição diplomática a qualquer intenção
internacionalista. Por último, e não menos importante, manter força
militar com aquele poder de dissuasão - porque, sim, a Amazônia desperta
cobiça internacional. A globalização alterou as relações internacionais,
o que torna mais fácil vislumbrar a Amazônia como internacional, pois
inúmeras ONGs atuam descontroladamente, praticando atitudes contrárias
aos interesses nacionais da Amazônia.
|