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Casta rentista quer extorquir o povo e não pagar imposto
Cálculo da carga usando
apenas um trimestre é distorção para nublar suas reais intenções
Na terça-feira, alguns jornais saíram com a
notícia de que a “carga tributária” no Brasil havia se elevado a um
nível “recorde” no primeiro trimestre deste ano, em relação ao primeiro
trimestre de 2007. Naturalmente, a intenção era passar que o governo
Lula está extorquindo dinheiro da população – portanto, é preciso acabar
com esses impostos, deixar o Estado em inanição, e o resto os
sonegadores, digo, o “mercado”, resolvem. Em suma, não são contra que o
povo continue a pagar impostos e que eles embolsem o dinheiro através
dos juros da dívida pública. Mas acham que, em compensação pelo
sacrifício de locupletar-se com o dinheiro dos impostos, não devem
pagá-los. Assim, acusa-se o governo de extorsão meramente porque eles,
monopólios financeiros sobretudo externos, com seus porta-vozes na
mídia, é que querem arrancar o couro do povo - e sem pagar impostos.

ARRECADAÇÃO
O próprio termo “carga tributária” é um
subproduto dessa cruzada de sonegadores e achacadores, confeccionado sob
medida para passar a idéia de que os impostos são um fardo insuportável
e não uma contribuição necessária para a coletividade.
Internacionalmente, usa-se a expressão “arrecadação como percentagem do
PIB” (“tax revenue as percentage of GDP”). Nem os americanos usam o
correspondente inglês a “carga tributária” (“tax burden”), exceto alguns
neoliberais alucinados.
Note-se que a arrecadação do conjunto dos
tributos brasileiros (federais, estaduais e municipais), traduzido em
percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), é 36,08%. É essa a “carga”
que provoca faniquitos em sonegadores e próceres da mídia monopolista.
Pois, a da França é 44,5%; a da Suécia, 51,1%; a da Holanda, 39,5%; a da
Inglaterra, 37,4%; a da Dinamarca, 49%; a da Itália, 42,7%; a da
Áustria, 42%; a da Alemanha, 38,8%; e a da Bélgica, 45,5% (dados da OCDE
– Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - e do
EUROSTAT - Statistical Office of the European Communities - 2005 e
2006). Somente a “carga” dos EUA, entre os principais países do mundo, é
menor que a nossa (27,3%), mas isso porque Bush depredou os serviços
públicos e concedeu isenções a magnatas e seus monopólios. O resultado é
que Nova Orleãs, depois de três anos da passagem do Katrina, continua em
ruínas. Portanto, a “carga” dos nossos impostos está longe de ser uma
aberração. O problema é outro: há uma casta neste país que não quer
pagar impostos.
Na história da “carga tributária recorde”,
omitia-se que no primeiro trimestre deste ano as empresas tiveram lucros
– estes, sim, recordes - em relação ao mesmo período do ano passado. As
200 maiores empresas que têm ações na Bolsa de São Paulo tiveram um
aumento médio de 10% na receita líquida e de 4% nos lucros. Este último
número, como acontece com certas médias, mais esconde do que revela a
verdadeira situação: as três maiores companhias foram excluídas desse
cálculo, exatamente as três mais lucrativas, a Petrobrás, a Eletrobrás e
a Vale do Rio Doce, e, mesmo assim, os resultados em alguns setores
foram exponenciais: a indústria da construção teve um aumento de 193%
nos lucros. Os cinco maiores bancos aumentaram os seus – que já eram
enormes – em 10,4%. A política de crescimento do presidente Lula
impulsionou os lucros – e observemos que estamos falando do lucro
oficialmente declarado nos balanços dessas empresas.
Portanto, é evidente que a arrecadação do
primeiro trimestre teria que aumentar, inclusive em relação ao PIB, pois
o principal imposto recolhido nesse período é o Imposto de Renda (IR),
que incide sobre os lucros. Aliás, nada há de estranho que num período
de crescimento a arrecadação de impostos aumente. Só pode sentir alguma
estranheza nisso quem não quer pagar impostos, ou, o que é a mesma
coisa, quem acha que somente o povo deve pagar impostos. Em relação ao
primeiro trimestre do ano passado, a arrecadação do Imposto de Renda,
devido a esse aumento de lucros, e ao combate à sonegação, cresceu
32,39%. A arrecadação do IPI aumentou 25,35%. A do ICMS, 17,68%. E o
Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), desde que o governo taxou com
ele uma série de operações especulativas que eram isentas, aumentou sua
arrecadação em 153,11% - o que, na verdade, é pouco, pois significou um
aumento de irrisórios R$ 1 bilhão e 770 milhões para apenas R$ 4 bilhões
e 480 milhões, revelando que bancos e especuladores ainda pagam muito
pouco imposto, quando pagam.
Mas há, realmente, algo de estranho. Como
advertiu a Receita Federal, não há sentido em calcular a “carga
tributária” (ou “carga fiscal”) de um trimestre. O motivo é que a coleta
de impostos não é uniforme ao longo do ano. Por isso, a “carga
tributária” é, por definição, anual. Calculá-la usando apenas um
trimestre é uma distorção – a rigor, uma manipulação. Sobretudo quando o
trimestre é aquele no qual os contribuintes pagam o Imposto de Renda, o
IPVA e o IPTU, além de serem recolhidos o ICMS, a Cofins e o PIS do
último mês do trimestre anterior. Para que fique mais claro, um exemplo:
por esse critério, a “carga tributária” do primeiro trimestre do ano
passado seria 37,03%. Mas, ao final de 2007, a carga tributária do ano
foi menor (36,08%). A diferença se dá por causa da concentração da
arrecadação no primeiro trimestre do ano, em especial o IR.
A suposta notícia passava por cima dessas
questões elementares para dizer que a “carga fiscal” havia atingido
38,9% do PIB no primeiro trimestre, um aumento de 16,75% (o que, no
caso, equivale a um aumento de 1,87 pontos percentuais – de 37,03% para
38,9%). Com essa comparação entre dois primeiros trimestres, tentava-se
eludir a incongruência de se calcular a “carga tributária” com base em
apenas um trimestre, passando nela uma tinta de suposta lógica. A fonte
do cálculo é uma entidade privada, o Instituto Brasileiro de
Planejamento Tributário (IBPT), com sede em Curitiba.
O próprio IBPT, tomando como base não o
trimestre, mas os últimos 12 meses (abril de 2007 a março de 2008),
chegou à conclusão que, em relação ao PIB desse mesmo período, a “carga
tributária” seria de 36,58%, quase igual a do ano passado (cf. a
publicação emitida pelo IBPT em 16/06/2008). Entretanto, o mais
importante é que essa comparação do primeiro trimestre deste ano com o
primeiro trimestre do ano passado só superficialmente parece lógica. No
essencial, ela é uma comparação de alhos com bugalhos.
VARIAÇÃO
No primeiro trimestre deste ano o PIB
cresceu 5,8% em relação ao primeiro trimestre de 2007. Em valores
monetários nominais, cresceu R$ 66 bilhões e 68 milhões (de R$ 598
bilhões e 85 bilhões para R$ 665 bilhões e 53 milhões). Houve, portanto,
um crescimento da economia, e, em função desse crescimento, um aumento
maior na arrecadação dos impostos. Portanto, as condições econômicas que
existiam no primeiro trimestre de 2007 não são as mesmas do primeiro
trimestre de 2008. Os lucros aumentaram e, como conseqüência, aumentou a
arrecadação. A variação da última foi maior do que a variação do PIB não
apenas porque o principal imposto incidiu sobre os lucros, mas também em
virtude do combate à sonegação.
Esse é um dos motivos da arenga sobre uma
suposta “carga tributária recorde”. O outro é dar um fim nessas
veleidades do governo Lula de atender os mais pobres e fazer o país
crescer – é assim que eles gostam de combater os “gastos públicos”:
ficando com as verbas dos programas sociais e ao PAC.
CARLOS LOPES – Hora do Povo
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