Antonio Carlos de Carvalho: dos anos 60 para a história

IRAPUAN SANTOS

O ano de 1968, seguinte ao de 1967 em que ocorreu a morte de Ernesto Che Guevara, ficou marcado pelo ápice de um amplo movimento estudantil que eclodiu nos anos 60 e que a par de em cada país da Europa e da América defender suas próprias bandeiras, tinha como pano de fundo um forte sentimento anti-imperialista, materializado no apelo internacional pelo fim da agressão americana contra o Vietnam.

Este sentimento foi imensamente reforçado pela política intervencionista americana que se seguiu à guerra fria, ditada pelo núcleo reacionário daquele país incrustado no Departamento de Estado a serviço da indústria bélica. Desta maneira, os assassinatos dos líderes progressistas americanos Robert Kennedy e Martin Luther King, ocorridos naquele ano, não foram apenas conseqüência da resistência dentro daquele próprio país.

Assim, Itália, Espanha, Alemanha, México, Peru deram demonstrações da amplitude destas mobilizações, em alguns casos acompanhados de greves de trabalhadores como na França.

O Brasil não ficou imune a esta conjuntura internacional. Os anos 60 foram anos de resistência, organização e mobilização para a retomada das conquistas democráticas perdidas com o golpe de 1964, que interrompeu a marcha natural da democracia no país e foi perpetrado nos moldes e com os mesmos componentes de outras intervenções na América Latina.

Milhares de brasileiros, trabalhadores, intelectuais, operários, líderes sindicais, camponeses, lideranças femininas arrojaram-se à luta, às vezes com a entrega das próprias vidas, para a defesa da nossa Pátria.

Mas, sem dúvida, a juventude brasileira naquele período teve um papel preponderante na resistência, não só nas mobilizações de massa, o que não foi pouco - a passeata dos 100 mil foi a principal mobilização da época - como, também, diante da falta de resposta da esquerda tradicional às questões mais de fundo do movimento revolucionário, ela deslocou para o campo da revolução alguns veteranos dirigentes que ainda mantinham dentro de si o vigor revolucionário e, em outros casos, contribuiu com a maioria dos quadros na formação de diversas organizações da “nova” esquerda.

Estas são algumas das reflexões que me vêm à cabeça com as recentes comemorações dos 40 anos do ano 68. Por esta razão, não poderia deixar passar este momento sem destacar o papel cumprido pelo vereador Antonio Carlos de Carvalho, o Tonico, nosso companheiro e vigoroso combatente.

O maranhense Antonio Carlos de Carvalho foi um dos principais dirigentes do MR8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro, organização à qual integrou-se em 1968 e permaneceu até o fim dos seus dias em 26 de novembro de 1993. Ainda em 1968 foi preso no Congresso da UNE realizado em Ibiúna, para o qual fora eleito delegado, e a partir do qual a entidade foi colocada na ilegalidade.

Preso em 2 de janeiro de 1970, suportou 46 dias de bárbara tortura, sendo libertado em 18 de março daquele ano sem fazer qualquer revelação aos seus algozes.

A partir da definição dos seus companheiros do MR8 de que era necessário organizar uma trincheira de resistência de luta também a partir MDB, coordenou a campanha de Lysâneas Maciel para deputado federal, que em 1974 vertebrou a oposição.

Em 1976 foi eleito para o Comitê Central do MR8 e, no mesmo ano, foi eleito vereador pelo MDB com 38.900 votos, na cidade do Rio de Janeiro.

Não houve luta que dissesse respeito à defesa da democracia e liberdade de expressão, aos estudantes, aos trabalhadores, aos favelados, à anistia para os presos, banidos e perseguidos pela ditadura que não tivesse contado com a sua ação e a sua palavra, reconhecida por todos que o conheceram como uma das mais vibrantes e candentes que o Rio de Janeiro ouviu.

No ano de 1980 esteve na linha de frente junto com estudantes, professores e democratas em geral na resistência à derrubada do prédio da UNE pela ditadura.

Ainda no ano de 1980 seu gabinete na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro sofreu um atentado à bomba, tendo mutilado seu tio e assessor José Ribamar Freitas, no mesmo dia em que atentado semelhante ceifou a vida de dr. Lyda Monteiro da Silva, secretária da OAB, em sua própria sede.

Nada disso o esmoreceu e seguiu sendo um líder exemplar respeitado amplamente nos mais diversos setores da sociedade.

Em 1978 liderou no Rio de Janeiro a Frente Popular Eleitoral e foi figura de destaque para garantir legenda ao candidato escolhido amplamente pela esquerda para seu representante na Assembléia Legislativa - o futuro deputado Raymundo de Oliveira.

Reconhecendo seu imenso papel, a Câmara de Vereadores batizou, no ano de 2007, o salão nobre daquela casa com o nome de Vereador Antonio Carlos Carvalho, homenagem justa a quem escreveu com luta, sangue, valentia e lucidez algumas das páginas mais heróicas da nossa cidade.

Rio, 28 de maio de 2008.

(*) é diretor da Hora do Povo.

 

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Atualizado em 06/06/08 15:33:32