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Em qual idioma nossos filhos sonharão?
Valério Bemfica* (**)
Imagine-se,
leitor, em um destes supermercados pertencentes a uma rede estrangeira.
Em todas as gôndolas, prateleiras e balaios, há apenas cinco marcas de
produtos, todas estrangeiras e oriundas de um único país, o mesmo da
rede do supermercado. Mandioca made in USA, queijo minas made in USA,
rapadura made in USA, entre outros. O leitor fica indignado e procura o
gerente: "Não adianta botar outro produto, o pessoal não compra".
Insistindo na própria liberdade de escolha, o leitor responde: "É claro
que não compra, não tem na prateleira". Com fina ironia, o gerente da
multinacional conclui: "É só procurar, nas prateleiras lá em cima e lá
embaixo, nós temos 0,5% de produtos brasileiros!"
Ao procurar um estabelecimento brasileiro,
surpreso, o leitor percebe que somente as mesmas cinco marcas estão
expostas. Fubá de Oklahoma e inhame do Kansas. Indaga a outro gerente
que responde: "O pessoal não gosta do produto brasileiro, só das coisas
gringas. Mas se o senhor fizer questão, temos uma prateleira, no segundo
subsolo, com 6% de produtos nacionais. Fazemos até promoção". Injuriado,
o leitor corre para o velho e bom armazém de secos e molhados. E qual
não será sua surpresa ao descobrir que eles se mudaram para os shoppings
e que a maioria foi comprada por uma rede americana! Depois de pagar o
estacionamento e de recusar inúmeras ofertas de pipoca em quilo e
refrigerante em litro, o leitor vê prateleiras de feijoada enlatada
diretamente do Kentucky. O gerente ainda explica: "Temos o maior
respeito pelo produto nacional, mas ninguém quer. Fazemos promoção às
segundas-feiras, tudo por R$ 1,00. Temos cerca de 9% de produtos
brasileiros". Cansado e furioso, o leitor sente que não adianta
argumentar e vai para a feira livre. Para a sua tristeza, o que encontra
nas barracas são apenas imitações – de origem e qualidade duvidosa – do
que encontrou nos grandes atacadistas. Indaga a um feirante, que
retruca: "O pessoal só quer saber de coisa gringa. É o que tem no
supermercado."
Ao substituirmos, nesta pequena fábula, a
comida pelos produtos audiovisuais, a rede estrangeira pela da TV a
cabo, a rede nacional pela TV aberta, o armazém pelos cinemas e a feira
livre pelos camelôs, temos um exemplo da dura realidade da nossa
cultura. Totalmente dominada pela indústria estrangeira, a distribuição
da arte no Brasil deixou de atender à lei máxima do mercado: a oferta e
a procura. Ao dominar o ciclo produção – distribuição – exibição, não
mais do que meia dúzia de empresas multinacionais decide o que fará ou
não sucesso no Brasil.
Os números citados não são aleatórios. O
produto audiovisual brasileiro ocupa 0,5% do mercado de TV por
assinatura, 6% do de TV aberta e 9% da programação dos cinemas. Na
música cerca de 90% do que toca nas rádios – e do que é vendido nas
lojas – provém dos estoques das multinacionais, sejam enlatados puros,
sejam imitações de sua estética. Quanto a pertencerem a apenas cinco
marcas, tampouco estamos brincando. No audiovisual, mandam: Warner,
Buena Vista (Columbia), Fox, UIP e Sony. Na música: Universal, Warner,
Sony/BMG e EMI. Se nosso leitor fictício fizesse uma busca na internet,
procurando as composições societárias de tais companhias, descobriria
que elas se cruzam em diversos pontos. Constataria também ligações entre
elas e os supostos distribuidores – Cinemark, Sky, Net etc. Se fosse um
pouco além, o leitor verificaria que a própria internet – suposta ilha
de liberdade da pós-modernidade – também é dominada, tanto em seus
provedores de acesso quanto nos de conteúdo, quase totalmente pelas
mesmas empresas, em uma intrincada rede de fundos de investimentos,
participações, acordos operacionais.
Vinte anos de ditadura ensinaram-nos a
repudiar a censura. Ficamos com medo da ingerência do Estado sobre a
criação artística. Lutamos bravamente para que o direito à livre criação
e expressão seja mantido. Mas parece que, no afã de defender a liberdade
do artista, acabamos por consolidar a liberdade de ação dos oligopólios
estrangeiros. Nos anos de neoliberalismo, vimos a Embrafilme fechar as
portas, as teles serem privatizadas, as cotas de exibição reduzidas, o
financiamento à cultura ser entregue ao mercado e o capital estrangeiro
ser autorizado a comprar 30% dos nossos meios de comunicação. Nos
próximos dias corremos o risco de o Congresso Nacional autorizar as
empresas multinacionais a dominarem 100% de nosso mercado de TV por
assinatura.
Quanto ao sonho dos nossos filhos, se o
embaixador Samuel Pinheiro Guimarães - o nº 2 do Itamaraty - está
correto ao afirmar que são as manifestações culturais as responsáveis
por criar e interpretar o imaginário nacional, o que nos possibilita uma
consciência enquanto Nação sobre o nosso passado, presente e futuro, o
que estamos fazendo ao entregar à indústria cultural estrangeira o nosso
imaginário? Nada mais, nada menos do que entregando a ela a nossa
história, o nosso dia-a-dia e o nosso porvir. Os menos jovens têm uma
alternativa: apegarem-se aos valores, convicções e ideais desenvolvidos
antes do domínio absoluto das multis sobre o nosso imaginário. Os mais
jovens têm pouca escolha. O seu imaginário está sendo praticamente todo
construído de fora. Para ser mais exato, têm 0,5%, 6% ou 9% de
liberdade. O american way of life penetra diariamente em suas mentes,
cativa seu olhar, vicia seus ouvidos. Espera-se com isso que o pano de
fundo de seus sonhos possua 50 estrelas e listras vermelhas e brancas.
Em poucas palavras, que sonhem em inglês.
É possível reverter esse processo. Nossa
cultura é produto da contribuição de povos do mundo inteiro. Mas a
capacidade de absorção sem descaracterização tem limites. A cultura
precisa de um tempo próprio – muito diferente do tempo da exploração da
indústria cultural – para digerir e recriar. Precisamos de medidas
claras e concretas que protejam nosso patrimônio e diversidade
culturais, que nos permitam construir uma visão própria sobre nosso
passado, viver plenamente nosso presente e construir soberanamente nosso
futuro.
*é presidente do Centro Popular de Cultura
da UMES - SP.
(**)Publicado originalmente no site
www.zedirceu.com.br
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