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Contratos precisam garantir propriedade da União no pré-sal
O diretor de Exploração e Produção da
Petrobrás, Guilherme Estrella, há mais de 30 anos na estatal, é uma das
maiores autoridades do setor. Geólogo, formado pela UFRJ, teve papel
decisivo no desenvolvimento de tecnologias de exploração de óleo em
águas profundas. Em 31 de janeiro de 2003 foi convocado pelo presidente
Lula para assumir a tarefa de coordenar os trabalhos de exploração da
companhia. Com extraordinária competência na interpretação geológica
para fins de exploração de petróleo de grandes regiões e não só de
blocos, estudou e mapeou conjuntos de bacias sedimentares inteiras, que
resultou na descoberta de petróleo na camada pré-sal. De posse dos dados
da mega reserva de Tupi levou ao presidente as informações da Petrobrás
que resultou na retirada da nona rodada de licitação da ANP de todos os
blocos que estavam na área do pré-sal. Estrella é presidente do Conselho
de Administração da Petrobrás e membro do Conselho de Administração da
subsidiária Gaspetro e da sua subsidiária Transportadora Associada de
Gás S.A.. Em entrevista ao HP, ele afirma que o pré-sal é a grande
oportunidade do Brasil, “de efetivamente nos alçarmos a um país com a
importância que nós temos: um país deste tamanho, um povo espetacular,
criativo, como o que nós temos”.
CLÓVIS MONTEIRO – Jornal Hora do Povo

Leia a entrevista:
HP - O que avançou no debate sobre o
petróleo nacional a partir do anúncio da descoberta do pré-sal?
ESTRELLA - Está se consolidando na sociedade
brasileira a consciência de que o país conta com uma reserva de um
insumo energético fundamental para o seu desenvolvimento. O professor
Bautista Vidal definiu há alguns anos nosso petróleo e gás como um
patrimônio estratégico natural da nação brasileira. Não podemos
considerar o petróleo e o gás como commodities, simples commodities. O
petróleo e o gás são um patrimônio estratégico natural da Nação
brasileira, que pertence ao povo brasileiro. O governo brasileiro tem
entendido, tem emitido suas opiniões, também com esse conceito com que
nós estamos lidando. Para mim, como diretor da companhia e como cidadão,
é extremamente confortável ver o acionista majoritário da companhia, que
é o governo brasileiro, emitir opiniões com as quais eu estou
inteiramente de acordo.
Um segundo ponto é que a partir da
consideração de que o petróleo é um bem estratégico, patrimônio natural
da Nação brasileira, do território nacional, vislumbramos a inserção do
petróleo no grande planejamento energético nacional. Pela primeira vez a
sociedade brasileira tem em suas mãos as condições de fazer um
planejamento energético que é fundamental para o desenvolvimento
nacional, para a ascensão do Brasil à uma Nação socialmente justa,
socialmente correta, e globalmente influente. Um planejamento energético
de médio e longo prazo, do ponto de vista da estratégia nacional de
desenvolvimento, da justiça social, da distribuição das riquezas
brasileiras, de permitir que a sociedade em geral aufira as riquezas do
nosso território, do nosso subsolo, do petróleo.
Considero que é fundamental o governo
brasileiro deter a gestão dos recursos energéticos nacionais. A energia
é fundamental para o desenvolvimento econômico. Não há país importante
no mundo que não tenha uma base energética sólida e concreta. Portanto,
é fundamental que o governo brasileiro detenha em seus limites de
decisão - autônomo e soberano de acordo com os verdadeiros interesses do
povo brasileiro – o poder de dispor desses recursos, com vista ao
planejamento energético.
HP- É possível ao governo dispor desses
recursos com a atual legislação?
ESTRELLA - Hoje, pela Constituição Federal,
o subsolo pertence à União, portanto as reservas petrolíferas pertencem
à União, mas a União não tem propriedade sobre o petróleo produzido. Na
legislação atual o petróleo é de propriedade de quem o produz – é o
regime de concessão. Isso, em se tratando da região do pré-sal, tem que
ser modificado. O governo, a União, tem que ser proprietária do petróleo
produzido.
Nós temos duas alternativas: uma é que a
União tenha a titularidade do petróleo. É a chamada participação na
produção simples: a empresa ganha uma licitação para produzir petróleo
numa determinada área. No pré-sal, não há mais o risco exploratório, são
áreas para a produção, não mais para a exploração. No modelo de partilha
de produção simples, as empresas vão ganhar as áreas para produzir na
base da partição entre a propriedade destas empresas do óleo e a
titularidade da União. Elas podem produzir quanto quiserem, e o petróleo
pertencente à União tem a titularidade da União. Neste modelo, a União
não tem poder de regular e de determinar quanto vai ser produzido, como
vai ser produzido, e onde.
Na minha opinião, a União deve deter a
propriedade desse petróleo. Pode até ser um modelo de partilha da
produção, mas concedendo à União a propriedade, não só a titularidade,
mas a propriedade do óleo produzido. Seja na partilha da produção ou no
contrato de serviço - o modelo a ser adotado é secundário, é até uma
decorrência dessa premissa básica da União ser proprietária do petróleo.
Isso vai permitir ao governo, de maneira soberana e autônoma, fazer um
planejamento a longo prazo da produção – na que vai certamente abastecer
o mercado nacional e na que vai ser exportada.
HP - E sobre a criação de uma nova
empresa estatal para o pré-sal. Isso esvaziaria a Petrobrás?
ESTRELLA - Há exemplos de governos que
possuem essas empresas dentro de sua área de atuação, e têm, também,
outras, de controle estatal, como a Petrobrás. São exemplos
absolutamente exitosos. Naturalmente, uma empresa sob controle estatal,
mas com grande participação privada dentre seus acionistas, impõe certas
condições que diferem de uma gestão direta estatal numa empresa pública.
São interesses diferentes que convivem. Mas há exemplos mundiais em que
convivem perfeitamente uma empresa absolutamente estatal, 100% estatal,
e uma empresa em que o governo detém o controle acionário, como
acionista majoritário, mas que também tem interesses privados, de Bolsa,
interferindo na gestão. A aplicação de modelos depende das
peculiaridades dos países em que o modelo é aplicado. Eu trabalhei na
Braspetro, na Petrobrás internacional, e me perguntavam: você não é a
favor do monopólio estatal do petróleo? Como é que está trabalhando na
Petrobrás em outro país? Há uma aparente incoerência. Eu respondia: não
há. Porque cada país sabe dos seus interesses, tem as suas
peculiaridades. Eu não posso ensinar, eu não tenho direito de ensinar a
outros países o que é melhor para suas sociedades. Para o Brasil eu
sempre disse, e digo ainda hoje, que o monopólio estatal do petróleo é a
melhor solução. Não deveria ter sido mudado, na minha opinião como
cidadão brasileiro. Mas, para as peculiaridades brasileiras de hoje, a
sociedade tem que discutir qual é o modelo melhor. Se é o maior
fortalecimento da Petrobrás, se é a criação de uma empresa pública que
vai também atuar neste assunto. Não tenho ainda uma posição definida.
Ainda que possa haver opiniões de um lado e de outro, a solução vai vir
desta discussão.
HP - O governo poderia aumentar sua
participação acionária dentro da Petrobrás, a partir da descoberta do
pré-sal?
ESTRELLA - É uma possibilidade concreta e
muito interessante. A grande maioria das empresas nacionais de petróleo
controladas pelo Estado têm uma participação acionária estatal muito
mais elevada do que a Petrobrás. Uma elevação, um aumento da
participação do governo no conjunto das ações da Companhia é muito
interessante. É uma empresa que tem um portfólio de projetos que
garantem o seu futuro a longo prazo. Além de dar ao governo uma condição
acionária mais confortável em termos de gestão da empresa, a União
também iria auferir melhores e maiores resultados, maior participação
nos resultados da companhia. Por suas políticas de distribuição de
renda, terá mais condições de investir no país a partir desse maior
ingresso de recursos decorrente da maior participação na companhia.
Todas essas coisas formam um conjunto de
iniciativas e alternativas que tem de ser pensado. Não podemos nos
fechar a um movimento de internacionalização e globalização que está em
curso. Eu sou favorável a uma inserção soberana, para citar o Brizola. O
grande interesse brasileiro é participar das soluções para o planeta
inteiro.
HP - Em relação ao pré-sal que já está
sendo perfurado, o senhor falou na formação de um cluster, de uma
unitização, um pólo. Como está sendo pensado isto? [NOTA: A “unitização”,
prevista no artigo 27 da atual Lei do Petróleo, significa que quando uma
jazida - como é o caso do pré-sal - se estende por mais de um bloco
contíguo, pertencentes a concessionários diferentes, as atividades de
desenvolvimento e de produção devem ser realizadas conjuntamente pelas
empresas concessionárias].
ESTRELLA - Os resultados que nós temos
obtido indicam que há uma grande probabilidade das descobertas que
realizamos, junto com os sócios, extrapolarem os limites dos nossos
blocos de concessão exploratório. Isso faz com que nessa área do pólo
pré-sal, que antigamente a gente chamava de cluster, na Bacia de Campos,
provavelmente em muitos locais, nós teremos que unitizar com a União.
Esta é a novidade. Unitizar com a União e com outros blocos em que nós
somos operadores, mas com outros parceiros. A lei do petróleo diz que a
União pode participar como componente da unitização de vários blocos. É
uma experiência nova para nós, mas que eu considero inescapável. Vamos
ter que sentar à mesa com as outras empresas que compõem os nossos
consórcios – só em um bloco nós não somos operadores, que é o bloco da
Esso – e com a União, que é proprietária das áreas entre os blocos.
HP - Durante este período, até uma nova
lei do petróleo, as licitações de blocos em áreas petrolíferas
continuarão, ou isso não é prudente?
ESTRELLA - Nós estamos num processo de
mudança que pode ser decisivo para o planejamento energético nacional.
Nessa situação, o melhor é darmos uma parada no processo que está hoje
em vigor, mas que reflete condições do passado, completamente diferentes
das atuais. As condições de contorno do problema mudaram radicalmente.
Portanto, há riscos se nós mantivermos esse processo em andamento tal
como está. O principal risco está na realização de novas licitações com
respeito ao pré-sal. No restante, não, nas outras regiões do país as
licitações podem continuar. Mas, com respeito ao pré-sal, nós temos que
dar uma parada, discutir com a sociedade, ver qual o novo marco legal
que vai reger e organizar esta área.
HP - Como será o impacto industrial deste
processo, já que estamos multiplicando por várias vezes a produção?
ESTRELLA - Talvez este seja o ponto
principal, depois de estabelecidas aquelas premissas básicas de
considerar o petróleo como um bem estratégico nacional e dar ao governo
as ferramentas de propriedade do óleo para poder decidir e realizar um
planejamento energético nacional. Boa parte da fabricação do projeto,
concepção, instalação desses novos sistemas de produção ainda é
importada. E nesta importação existe muito de tecnologia. A tecnologia é
um quesito que individualmente não é muito caro, não é o preponderante
do ponto de vista financeiro, mas ela governa e decide o futuro. Existe
uma coisa importantíssima inserida na tecnologia, que é a inteligência,
a competência de criar novos conhecimentos. Temos de aproveitar o
pré-sal, onde a escala dos investimentos é gigantesca, a quantidade de
equipamentos é extremamente grande, para que aquela parte tecnológica
que ainda não está nacionalizada nos nossos projetos atuais seja
efetivamente nacionalizada com a inteligência brasileira, com a
universidade brasileira, com a participação brasileira no
desenvolvimento tecnológico. Essa é a grande oportunidade do pré-sal.
Iniciamos com o conteúdo nacional para gerar emprego, que é uma dívida
social que temos com a sociedade brasileira, mas agora configura-se a
segunda etapa. Geramos emprego, mas também vamos gerar conhecimento,
tecnologia, inteligência neste conteúdo nacional, de maneira que,
fazendo um prognóstico de 10 ou 15 anos, nós tenhamos as coisas
fabricadas no Brasil, com inteligência brasileira, com desenvolvimento
tecnológico brasileiro, e competindo internacionalmente. A soberania não
é só na produção de bens primários, o que também é importante, mas
também na produção de bens com alto valor tecnológico agregado.
HP - O senhor poderia dar exemplos de
áreas em que isto ocorrerá?
ESTRELLA - Por exemplo, barcos de apoio. Nós
acabamos de lançar um programa de mais de cem barcos de apoio. Esses
barcos de apoio são projetados no exterior. Os motores vêm do exterior,
as partes mais tecnologicamente elaboradas são projetadas do exterior, o
sistema de posicionamento dinâmico são projetados e a maior parte
construídos no exterior. Não é possível nós recebermos o 146º barco com
projeto no exterior. Quando vem o projeto do exterior, até as escotilhas
e maçanetas são projetadas no exterior. É inaceitável. Nós temos que
chegar a um barco projetado no Brasil, construído no Brasil, com
inteligência brasileira para suprir nossas necessidades. Nós temos que
inserir o projeto da engenharia nacional no pré-sal. Quando a gente fala
de engenharia é, lato sensu, não só o engenheiro - é o geólogo, o
geofísico e todas as ciências correlatas. É inserir a inteligência
brasileira num grande projeto de melhoria e elevação da nossa
competência como sociedade geradora de tecnologia.
HP - Então, o pré-sal pode ser a grande
alavanca do desenvolvimento?
ESTRELLA - O pré-sal tem que ser a grande
alavanca. Governo, sociedade brasileira como um todo, políticos,
empresários brasileiros envolvidos nisso. Essa é a grande oportunidade
do Brasil, de efetivamente nos alçarmos a um país com a importância que
nós temos: um país deste tamanho, um povo espetacular, criativo, como o
que nós temos.
HP - A parceria com a Nuclep na
construção de plataformas é um exemplo para desenvolvermos esta
inteligência?
ESTRELLA - Nuclep é um exemplo da
competência brasileira na engenharia de projeto e construção de grandes
estruturas. Estou procurando o Ministério de Ciência e Tecnologia para
montarmos um grande projeto de desenvolvimento tecnológico nacional
baseado no pré-sal. Entrarão a Nuclep, as universidades brasileiras, os
centros de pesquisa. Não será aceitável que com essa riqueza toda nós
venhamos a produzi-la sem a inteligência brasileira.
O país está com uma grande oportunidade de,
afinal, levantar o gigante adormecido e se fazer presente, de uma forma
pacífica, não preconceituosa, solidária, que marca a característica do
povo brasileiro. Esta é a grande contribuição que podemos dar à
humanidade. Um país pujante, ensolarado, com um povo que ama a vida, mas
também tecnologicamente avançado, com criação de conhecimentos. Temos
intolerâncias, mas em menor nível que outros países. Somos um povo
solidário, trabalhador. Acho que o Brasil tem as condições para dar uma
grande contribuição.
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