Tentativa de privatizar a CESP
é marcada para 26 de março
Governo paulista quer retomar desmonte do setor
que resultou no apagão e nas tarifas extorsivas
O governo paulista anunciou na noite de terça-feira
(19) que o leilão para privatização da Companhia Energética de São Paulo (Cesp)
será marcado para o próximo dia 26 de março, com o edital devendo ser publicado
a partir de 25 de fevereiro. A intenção é leiloar cerca de 133 milhões de ações,
a um preço mínimo de R$ 49,75 por ação. Ou seja, o Conselho Diretor do Programa
Estadual de Desestatização estabeleceu para a terceira maior geradora de energia
elétrica do país o preço mínimo de R$ 6,6 bilhões.
O que essas ações determinam é o controle de uma
companhia que gera 10% da energia do país e 63% da energia do Estado mais
industrializado do Brasil. Mesmo pelo viciado - porque manipulado pela
especulação - critério de preço das ações, a estimativa é de que elas não
valeriam menos de R$ 60,00 por unidade, considerando a média e a tendência do
mercado. Os próprios “avaliadores”, o Citibank e o Fator, estimaram o preço
total em R$ 14 bilhões - e, evidentemente, o papel desses “avaliadores” jamais
foi o de estabelecer o preço real, mas, exatamente, o de subavaliá-lo. Outras
estimativas falam num preço “de mercado” de cerca de R$ 20 bilhões.
É verdade que a CESP tem um passivo de R$ 5,2
bilhões. No entanto, para “prepará-la” para a privatização, o governo do Estado
gastou, a partir de julho de 2006, R$ 6,3 bilhões, conforme apresentação feita
pelos próprios tucanos na única audiência pública realizada, em 15 de janeiro,
na Bovespa.
LUCROS
“A título de informação, o custo para a implantação
de novas usinas hidrelétricas gira em torno de US$ 2.000,00 por kW instalado.
Assim, considerando a capacidade instalada de geração da empresa, as ações
controladas pelo governo paulista valem cerca de R$ 11,6 bilhões. (....) a
companhia tem potencial de auferir, indefinidamente, lucros anuais da ordem de
R$ 2,0 bilhões”, diz o professor Helvio Rech, especialista da USP.
E continua: “Conceitualmente, a lógica que orienta a
privatização do setor hidrelétrico está na disputa pela apropriação da renda
hidráulica, que é a diferença entre o custo de geração das usinas hidráulicas e
o preço pago pela venda dessa energia. No caso das usinas do rio Paraná, estas
são extremamente atrativas para bancos e demais investidores privados, uma vez
que o custo médio de geração de todas as usinas da empresa é da ordem de R$
40,00 por MWh de energia, contra um preço de venda da energia no mercado livre
em torno de R$ 130,00 o MWh. Isso representa uma renda diferencial (hidráulica)
de R$ 90,00 por MWh. Como o parque gerador garante 3.916 MW médios de energia
assegurada, essa renda soma R$ 3,52 bilhões anuais. (....) Caso se concretize a
venda da CESP Paraná, os custos dessa transação recairão sobre o conjunto dos
consumidores de energia elétrica do país, pois não existe nenhuma restrição que
impeça os futuros controladores da empresa de transferir a energia destinada
para o mercado cativo e regulado para o mercado livre, em que poderão auferir
lucros fabulosos. Com isso, o mercado cativo será obrigado a comprar energia das
novas usinas – mais cara –, o que resultará em novos aumentos de tarifa numa
energia que hoje já figura entre as mais caras do mundo embora fosse uma das
mais baratas antes do início das privatizações no setor elétrico. A venda
pressionará os preços à alta, vez que os compradores têm pressa de recuperar o
capital investido” (cf. H. Rech, “Privatização da CESP Paraná, um erro que
precisa ser evitado”).
A Cesp é uma empresa de ponta e estratégica ao
desenvolvimento, com capacidade instalada de 7.456 MW, distribuída em seis
hidrelétricas: Ilha Solteira, Três Irmãos, Jupiá, Porto Primavera, Jaguari e
Paraibuna. A companhia resultou de um sistema que começou a ser estruturado na
década de 50, período em que a industrialização se expandia no país, quando
foram criadas várias empresas de energia no Estado. Em 1966, 11 delas se
unificaram na Centrais Elétricas de São Paulo, tendo a razão social alterada em
1977 para Companhia Energética de São Paulo.
A venda da Cesp significa a continuação da política
do “Estado mínimo” - instituída em são Paulo com o Programa Estadual de
Desestatização (PED), em 1996 -, que no setor elétrico transferiu aos monopólios
privados a Elektro (EUA), Cesp Tietê (EUA), Cesp Paranapanema (EUA), CTEEP
(Colômbia), Eletropaulo Metropolitana (EUA) e CPFL. O resultado foi o apagão de
2001, de triste memória.
Levantamento feito pelo Dieese/Sinergia, com base
em dados da Aneel e do IBGE, é ilustrativo da tarifas cobradas pelas empresas
privatizadas. Entre 1997 e 2007, enquanto o acumulado do Índice Nacional de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação, atingiu 93,53%, na
região Sudeste o reajuste médio de energia elétrica totalizou 327%.
Isoladamente, o aumento da tarifa residencial foi de 262,94% e da iluminação
pública, 265,64%.