Privatização da CESP Paraná, um erro que
precisa ser evitado
Hélvio Rech 1
A decisão do governo paulista de privatizar a CESP
Paraná significa a retomada da política que foi responsável pela mais grave
crise de energia que o Brasil vivenciou e que culminou com o apagão - uma
decisão que muitos acreditavam ser página virada na vida nacional e que
surpreendeu diversos setores da sociedade em São Paulo e nos demais estados que
integram e compartilham a Bacia do Paraná.
Com 7.456 MW de potência instalada, a CESP Paraná é
a maior geradora de energia elétrica de São Paulo. Sua venda é uma operação
totalmente inútil para a sociedade, pois dilapida o patrimônio público, provoca
desemprego, concentra renda e não acrescenta um único kW novo à capacidade de
geração de energia elétrica, num momento que o Brasil precisa construir mais
usinas para que o drama do apagão não se repita. Vale lembrar que os
compromissos de ampliar em 15% a capacidade de geração dos rios Paranapanema e
Tietê, assumidos no edital de venda das usinas desses rios para a iniciativa
privada em 1999, jamais foram cumpridos pelas novas controladoras, embora o
prazo inicial estabelecido tenha se esgotado em 2007. Como aconteceu no passado,
o ônus de um colapso no setor elétrico recairá sobre a população, na forma de
racionamento e encargos emergenciais ou temporários.
Para o povo de São Paulo, a venda da CESP Paraná
significa também a renúncia à participação do Estado na implementação de uma
política ativa para o setor energético e a perda de um instrumento de
desenvolvimento regional, como foi a CESP no passado em todas as regiões do
estado em que atuou. São Paulo perde a capacidade de influir diretamente sobre o
setor mais estratégico, sobre o qual se assenta o desempenho de toda a sua
economia.
O governador José Serra pretende alienar 43,31% do
capital total da empresa que pertence ao estado e que o torna o maior acionista
e controlador da direção da CESP. O valor da transação ainda não foi divulgado e
está sendo tratado a sete chaves. Das várias fontes que especulam, aparecem
valores entre dois bilhões a seis bilhões de reais, sendo o valor de quatro
bilhões de reais, o mais provável. Essa variação é explicada pelos diferentes
critérios de avaliação e da modalidade do leilão. A título de informação, o
custo para a implantação de novas usinas hidrelétricas gira em torno de US$
2.000,00 por kW instalado – as usinas do rio Madeira irão custar um pouco mais
2. Assim, considerando a capacidade instalada de geração da empresa, as ações
controladas pelo governo paulista valem cerca de R$ 11,6 bilhões 3. Embora a
dívida da CESP Paraná seja de R$ 6,5 bilhões, a companhia tem potencial de
auferir, indefinidamente, lucros anuais da ordem de R$ 2,0 bilhões.
Conceitualmente, a lógica que orienta a
privatização do setor hidrelétrico está na disputa pela apropriação da renda
hidráulica, que é a diferença entre o custo de geração das usinas hidráulicas e
o preço pago pela venda dessa energia. No caso das usinas do rio Paraná, estas
são extremamente atrativas para bancos e demais investidores privados, uma vez
que o custo médio de geração de todas as usinas da empresa é da ordem de R$
40,00 por MWh de energia, contra um preço de venda da energia no mercado livre 4
em torno de R$ 130,00 o MWh. Isso representa uma renda diferencial (hidráulica)
de R$ 90,00 por MWh. Como o parque gerador garante 3.916 MW médios de energia
assegurada, essa renda soma R$ 3,52 bilhões anuais. Evidentemente esse é um
valor de referência, mas demonstra que a robustez financeira da CESP Paraná é
inquestionável: o valor médio da energia gerada pela empresa é pelo menos três
vezes superior ao seu custo de geração, o que representa um valor agregado
superior ao de qualquer outra atividade produtiva ou aplicação financeira.
Caso se concretize a venda da CESP Paraná, os custos
dessa transação recairão sobre o conjunto dos consumidores de energia elétrica
do país, pois não existe nenhuma restrição que impeça os futuros controladores
da empresa de transferir a energia destinada para o mercado cativo e regulado
para o mercado livre, em que poderão auferir lucros fabulosos. Com isso, o
mercado cativo será obrigado a comprar energia das novas usinas – mais cara –, o
que resultará em novos aumentos de tarifa numa energia que hoje já figura entre
as mais caras do mundo embora fosse uma das mais baratas antes do início das
privatizações no setor elétrico. A venda pressionará os preços à alta, vez que
os compradores têm pressa de recuperar o capital investido.
E o sobrepreço, uma espécie de “imposto compulsório
da energia elétrica”, uma vez que todo o valor disposto para arrematar a empresa
no leilão será recuperado pelos novos controladores via tarifa, e que incide não
apenas sobre consumidores domésticos, mas sobre os custos de toda a produção
industrial, elevando o custo Brasil, pressionando a inflação e impactando
negativamente toda a economia.
Vale destacar a estranha coincidência de que a
proposta de privatização da CESP Paraná, em nenhum momento antes ventilada pelo
governo Serra, seja colocada exatamente num momento pré-eleitoral, quando os
partidos políticos estão à caça de recursos para financiar suas campanhas.
Se prevalecer a vontade dos interessados na venda
da CESP Paraná, em detrimento dos interesses do conjunto dos usuários dos
serviços públicos de energia elétrica, os estados integrantes da bacia do Paraná
perderão a possibilidade de participar do debate sobre o papel que a CESP Paraná
deveria desempenhar no desenvolvimento regional. Durante décadas, a CESP
impulsionou – e continua impulsionando -- o desenvolvimento do estado de São
Paulo, não só fornecendo energia para suas indústrias, como também por suas
atividades de pesquisa e desenvolvimento e pela atuação de seu quadro de
técnicos e engenheiros altamente capacitados, que foram envolvidos em projetos
de desenvolvimento do lado paulista das regiões interioranas das bacias do Tietê
e do Paranapanema. Exemplo disso são as regiões da Alta Sorocabana e Araçatuba,
entre outros.
Estes benefícios não foram sentidos nos lados
sul-mato-grossenses e paranaenses da bacia, que tiveram parte de seus
territórios inundados pelos reservatórios das usinas, mas esta realidade deveria
mudar, vez que estes estados, pelo princípio dos entes federados que
compartilham ambientes e recursos comuns, têm o direito de discutir o futuro da
CESP Paraná e apontar cominhos que diminuam as diferenças regionais. Este sonho
pode estar mais próximo que nunca.
As possibilidades de esses estados terem uma
participação mais ativa na gestão dos recursos da bacia do Paraná -- e na
apropriação dos benefícios proporcionados pela exploração do potencial
hidráulico do rio Paraná -- aumentam com a proximidade do fim do período das
concessões das usinas do rio Paraná (UHE Porto Primavera, 2008; UHE Jupiá, 2015
e UHE Ilha Solteira, 2015).
Nunca é tarde lembrar que decisões importantes e
estratégicas, que atingem mais de uma geração não podem ser tomadas pelos
governantes de plantão, sem um amplo debate com a sociedade.
Portanto, é o momento de corrigir uma distorção
histórica e reafirmar que a energia gerada no rio Paraná deve atender ao serviço
público e não ser colocada a serviço das empresas comercializadoras de energia,
que buscam apenas especular com os preços para auferir lucros cada vez maiores,
em detrimento dos interesses dos usuários da energia. A magnitude da energia
gerada pelas usinas do rio Paraná a preços relativamente baixos -- uma vez que
os investimentos iniciais já estão praticamente amortizados – permite que elas
funcionem como um colchão, capaz de conter a alta dos preços que tende a ocorrer
a partir da entrada em operação das novas usinas que, inevitavelmente produzirão
energia a preços mais caros, seja pela elevação dos custos dos insumos,
materiais e equipamentos, seja pela necessidade de recuperar os investimentos
feitos para sua construção.
Além disso, não podemos esquecer que a CESP
desenvolveu, ao longo de décadas, uma expertise sem igual na área da geração de
energia hidrelétrica (engenharia, projetos, planejamento e meio ambiente).
Construída com recursos públicos, essa expertise tem de ser colocada a serviço
do desenvolvimento energético nacional, da exploração de novos potenciais com a
necessária proteção do meio ambiente, e também da construção da integração
energética latino-americana, em cooperação com demais países como Paraguai,
Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Argentina e Uruguai.
Em suma, a CESP Paraná pode e deve desempenhar um
papel mais ativo no desenvolvimento regional, particularmente nos estados de
Mato Grosso do Sul e Paraná, seja pela participação desses estados nos ganhos
provenientes da geração de eletricidade, seja pela colocação da capacidade
técnica da empresa a serviço da redução das desigualdades regionais, que ainda
são fortes especialmente nas regiões do Pontal do Paranapanema, em São Paulo, no
Noroeste do Paraná e no Sul e Sudeste de Mato Grosso do Sul.
A CESP Paraná, com sua experiência, capacidade
técnica e recursos financeiros, tem muito a contribuir para a exploração dos
recursos do rio Paraná considerando seus múltiplos usos – como desenvolvimento
do turismo, navegação, agricultura e irrigação –, assim como para garantir a
preservação efetiva de áreas de proteção ambiental, como a APA das Ilhas e
Várzeas do Rio Paraná. Nessa região está única área remanescente protegida e que
abriga ecossistemas únicos (como o “varjão do rio Paraná”), cuja proteção deve
ser compatibilizada com a busca de alternativas de renda e desenvolvimento
social para a população local, numa perspectiva que integre desenvolvimento
regional e proteção ambiental.
1 Mestre e doutorando em energia USP. É especialista
em regulação de serviços públicos concedidos (FIPE-USP/Unicamp/EFEI). Foi
diretor da APA das Ilhas e Várzeas do rio Paraná - IBAMA. E.mail: hrech@usp.br
2 Utilizar como critério os custos próximos ao das
usinas do rio Madeira faz sentido, uma vez que esse custo tende ser a regra,
dado que os potenciais ainda não explorados têm características semelhantes,
como a distância dos centros consumidores. Considerando a capacidade instalada
de 7.456 MW, o valor da CESP Paraná seria de R$ 26,8 bilhões.
3 Com dólar cotado em R$ 1,80.
4 O preço da energia no mercado livre tem
apresentado grande variação: Para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o preço na
semana de 26 de janeiro a 1º fevereiro, foi de R$ 550,28; na semana seguinte, R$
255,91. Com as chuvas dos últimos dias, caiu para R$ 150,00. Já no leilão da
Usina Hidrelétrica do Rio Madeira, em 10 de dezembro de 2007 foi ofertada a R$
78,90 MWh, pelo consórcio vencedor. No entanto, analistas projetam um valor
estável de R$ 130,00 em 2010-2012.