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Os privatistas do Ipea e a farsa do déficit da
Previdência Social
Alessandro Rodrigues – Hora do Povo
Alvo constante dos privatistas, o sistema previdenciário brasileiro está sendo
discutido exaustivamente no Fórum Nacional da Previdência Social (FNPS), órgão
criado pelo governo federal para "promover o debate entre os representantes dos
trabalhadores, dos aposentados e pensionistas, dos empregadores e do governo
federal com vistas ao aperfeiçoamento e sustentabilidade dos regimes de
previdência social e sua coordenação com as políticas de assistência social".
Não é uma surpresa, mas, em alguns casos, tecnocratas convidados para expor suas
"idéias" se superam em desenterrar ou "atualizar" as mais grosseiras
falsificações e manipulações sobre um suposto déficit na Previdência, sua
iminente falência, etc., que tanto foi propalado durante o passado governo
tucano para demonizar o sistema.
Manipulações;
As exposições de "técnicos" do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)
são, de longe, as mais despudoradas. Pérolas como "a Previdência tem regras
muito generosas para a concessão da pensão por morte", que "o Brasil gasta como
um país rico e ainda mantém uma demografia de país emergente", a Previdência vai
quebrar, é deficitária e precisamos cortar "mordomias" são constantemente
propaladas para sustentar propostas indecorosas, que visam unicamente fazer com
que o brasileiro se aposente à beira da morte, com pensões baixas, e para
transformar o sistema previdenciário público em algo que desperte repulsa no
trabalhador, que seria forçado a se atrelar à previdência privada, se não
quiser, depois de idoso, morrer de fome.
Isso pode servir de síntese às explanações de Fábio Giambiagi – ex-assessor de
José Serra no Ministério do Planejamento - e Marcelo Abi-Ramia Caetano, ambos do
IPEA, e de outros que é desnecessário citar. Apresentaram manipulações e mais
manipulações, estatísticas que caem como uma luva na máxima de torturar os
números para que digam o que eles querem, e em seguida propor que a idade mínima
para requerer aposentadoria por tempo de contribuição seja, a partir de 2010, de
60 anos para os homens e 55 para as mulheres, subindo gradativamente até 2026,
para 64 e 62 para homens e mulheres respectivamente.
Idade Mínima;
Atualmente, não existe idade mínima para aposentadoria por tempo de contribuição
(35 anos/homem e 30 anos/mulher). A idade mínima somente é exigida para a
concessão da aposentadoria por idade (65/ homem e 60/mulher), existindo também a
aposentadoria por tempo de contribuição proporcional (53/homem e 48/mulher). Mas
os que ingressassem no sistema no ano que vem, segundo a proposta apresentada
pelos tucanos do IPEA, já teriam que trabalhar até 67 (H) e 66 (M) anos (e esta
idade seria aumentada em 1 ano a cada 4 anos), além de aumentar o tempo mínimo
de contribuição para 40 anos.
Viúvas;
Além disso, propuseram ainda que as pensões das pobres viúvas sejam reduzidas
para 80% do que o marido recebia e, mais grave, que o piso previdenciário seja
desvinculado do salário mínimo, possibilitando que os aumentos de aposentadorias
e pensões sejam menores do que o mínimo até que os idosos (no caso, nós,
trabalhadores de hoje) recebam, talvez, 1/3 do salário mínimo nos poucos anos
que terão para desfrutar a gloriosa aposentadoria.
A professora Denise Lobato Gentil, do Instituto de Economia da UFRJ, definiu
muito bem o motivo de ataques como estes à Previdência: "O discurso de falência
da previdência pública e da necessidade de privatizá-la e/ou de tornar os seus
custos menores para o orçamento público visa garantir a continuidade da
destinação de parte significativa dos recursos orçamentários para pagamento de
juros ao sistema financeiro. Essa garantia precisa ser dada através de políticas
governamentais efetivas que assegurem um superávit primário elevado. A execração
da previdência pública tem sido útil aos interesses rentistas de desmonte do
Estado, e que são os mesmos que defendem a política de juros altos".
Falácia;
É claro que medidas draconianas como as citadas acima pelos "técnicos" não serão
abraçadas pelo governo, pois o próprio presidente já declarou que o déficit da
Previdência é uma falácia e que se deve levar em conta o caráter social do
sistema. No entanto, tais falsificações devem ser combatidas para que não sejam
exumadas outra vez daqui a pouco.
Antes de entrarmos nos números, sem torturá-los, é necessário expor o que
representa o sistema previdenciário brasileiro, uma das maiores conquistas dos
trabalhadores e um grande avanço consagrado na Constituição de 1988. A
Previdência é o maior instrumento de distribuição de renda do país, impedindo o
aumento da desigualdade social e é a segurança para milhões de brasileiros de
que não ficarão desamparados após dedicarem as suas vidas para a construção de
uma grande Nação. Antes de ser uma obrigação do Estado, é um direito justo e
intocável do trabalhador. Como determina corretamente a Constituição, ela, a
seguridade social, "será financiada por toda a sociedade, de forma direta e
indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios".
Déficit;
O primeiro ponto a ser destacado é sobre a manipulação em relação ao déficit
apresentado nas contas da Previdência. Para tanto, basta citar os dados reunidos
no estudo da professora Denise Lobato Gentil. Segundo ela, "os números
utilizados para avaliar a situação financeira da Previdência são normalmente
enganosos e alarmistas. Divulga-se que o déficit previdenciário, em 2005, foi de
R$ 37,6 bilhões e, em 2006, de R$ 42 bilhões. O que vem sendo chamado de déficit
da Previdência é, entretanto, o saldo previdenciário negativo, ou seja, a soma
de receitas provenientes das contribuições ao INSS sobre a folha de salários e
demais rendimentos do trabalho deduzidas dos benefícios previdenciários do RGPS.
Este cálculo não leva em consideração todas as receitas que devem ser alocadas
para a Previdência Social, conforme estabelece o Art. 195 da Constituição
Federal, deixando-se de computar recursos significativos, provenientes da COFINS,
CPMF, CSLL e receita de concursos de prognóstico. Essas receitas devem financiar
a saúde, assistência social e também a previdência".
Superávit;
A professora acrescenta que "se computada a totalidade das fontes de recursos
que cabem à Previdência, conforme dispõe a Constituição Federal, e deduzida a
despesa total, inclusive os gastos administrativos com pessoal, custeio, dívida
do setor e gastos não-previdenciários, o resultado apurado será um superávit de
R$ 921 milhões em 2005 e R$ 1,2 bilhão em 2006. Houve superávit em praticamente
todos os anos dos últimos sete anos. Esse superávit, denominado superávit
operacional, que é uma informação favorável, não é divulgado para a população
como sendo o resultado da Previdência Social".
Além disso, temos que observar que "o excedente de recursos gerado se elevou de
R$ 27,3 bilhões em 2000 para R$ 72,2 bilhões em 2006. Houve desvio de recursos
do orçamento da seguridade social para além dos 20% legalmente autorizados pelo
mecanismo da DRU: o desvio oscilou de R$ 12,4 bilhões, em 2001, para R$ 38,5
bilhões, em 2006. O desequilíbrio orçamentário está no orçamento fiscal e não no
orçamento da seguridade social ou no orçamento da previdência social".
O sistema previdenciário não está melhor ainda porque o desgoverno tucano
promoveu uma política recessiva, jogando milhões de trabalhadores no desemprego
e na informalidade. Ao mesmo tempo, reduziu a massa salarial e incentivou a
proliferação da previdência privada. Todos estes fatores diminuíram o número de
contribuintes e, conseqüentemente, reduziram a arrecadação direta da
Previdência.
Intenção privatista;
Não é segredo para ninguém que a intenção privatista, derrotada majoritariamente
nas últimas eleições, é tentar impor ao governo a sua pauta de "reformas" que
visam esfolar o povo. Eles ainda não aceitaram o fato de que perderam as
eleições. Isto está escancarado num folheto intitulado "Previdência no Brasil:
debates, dilemas e escolhas", onde Paulo Tafner e Fabio Giambiagi atacam a
Previdência, defendem a sua privatização e criam um manual de como o presidente
Lula e os deputados deveriam agir para aprovar as medidas contra os
trabalhadores.
Neste panfleto eles alardeiam asneiras do tipo "as discussões mais modernas
sobre o tema [Previdência] recaem sobre o processo de retirada do Estado como
provedor desse amplo desenho de proteção social" e que "quando as condições
sanitárias e de saúde melhoram, a população vive mais e melhor (...), mas uma
tragédia para o financiamento da previdência" e os portadores de deficiência ou
que não contribuíram os 40 anos tenham "a idade de acesso a esse benefício
elevada para 70 anos e que seu valor seja fixado em 75% do piso previdenciário".
Ou seja, quando morrerem.
Crescimento econômico;
De acordo com o estudo elaborado pela Central Única dos Trabalhadores e
apresentado pelo seu presidente, Arthur Henrique, no Fórum, "caso o PIB, entre
1995 e 2005, tivesse crescido 0,5% a mais ao ano, a receita de contribuição de
empresas e trabalhadores seria pelo menos 5% maior que a atual".
Como se pode observar, o crescimento econômico e políticas que busquem a
formalização dos trabalhadores são fundamentais para ampliar a arrecadação da
Previdência, podendo-se assim ampliar o valor pago nas pensões e o dinheiro
utilizado para promover a redução da desigualdade social. Ainda segundo o estudo
da CUT, se ampliarmos a taxa de trabalhadores ocupados dos atuais 47% (cerca de
41 milhões) para 50%, a receita anual da Previdência seria acrescida de, pelo
menos, R$ 3 bilhões, levando-se em consideração a contribuição sobre um salário
mínimo. Portanto, a formalização dos trabalhadores, a ampliação do número de
trabalhadores que contribuam para o sistema, é a receita básica para dispormos
de mais recursos para ampliar ainda mais o superávit que a seguridade social já
apresenta, sem dar margem alguma para futuras manipulações e "preocupações"
sobre a falência da Previdência.
A ampliação do número de contribuintes pode ser feita de duas formas. A primeira
é o crescimento econômico. Para isso temos o PAC, que deve ser aquecido pela
redução dos juros. A segunda é a mudança da forma de recolhimento, passando-se a
cobrar sobre o faturamento da empresa e não sobre a folha de pagamento. Com isso
corrigem-se distorções e se possibilita que as pequenas empresas possam
formalizar um número maior de funcionários. Tais medidas são mais do que
suficientes para garantir que a Previdência possa não só manter a idade atual de
aposentadoria e contribuição para o trabalhador se aposentar, como ampliar o
valor pago nos benefícios, principalmente das viúvas (exceto as de Fernando
Henrique).
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