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Giambiagi, Lacerda e a futurologia dos “fatos”
Alessandro Rodrigues – Hora do Povo
Na quarta-feira, o estimado ex-assessor de José Serra no Ministério do
Planejamento e economista cedido ao IPEA, Fábio Giambiagi - especialista em
astrologia e futurologia previdenciária - voltou a usar as páginas da “F. de São
Paulo” para propalar seus pareceres sobre a Previdência Social. Neste texto,
Giambiagi procura se defender das certeiras observações proferidas pelos
economistas Eduardo Fagnani e José Carlos Cardoso, em artigo publicado no mesmo
espaço dia 8 de agosto.
Moço apegado a “projeções”, Gimabiagi reclama da “retórica” que teria sido usada
pelos economistas para desmontar as suas manipulações da situação em que se
encontraria a Previdência. Disse que deixaria as palavras de lado e partiria
para os “fatos”. Cita cinco deles, pelos quais comprovaria a necessidade de se
fazer uma reforma da Previdência e, assim, impedir a falência do sistema.
Segundo ele, o “fato” mais importante é que “em 1988, a despesa do INSS era de
2,5% do PIB; deverá ser de 7,2% do PIB em 2007”. Entretanto, o problema não foi
que a despesa do INSS cresceu e sim que o PIB ficou estagnado neste período,
principalmente em virtude de políticas econômicas destrutivas como a de FHC, que
contou e conta com o apoio de Giambiagi. Mesmo assim, se os gastos aumentaram,
as receitas do governo também, mas a maior parte dos recursos foi destinada para
os juros.
Ao instituir o sistema de Seguridade Social em 1988 – que engloba a Previdência
- os constituintes criaram também as fontes para o seu financiamento. Não é à
toa, ao contrário do que divulga Giambiagi, que a Seguridade Social (contando
todas as fontes constitucionais) é superavitária e dispõe de recursos para
garantir a aposentadoria de muita gente. No primeiro ano do governo Lula, 2003,
o superávit foi de R$ 31,7 bilhões; em 2004, R$ 42,5 bilhões; em 2005, R$ 57,7
bilhões; no ano passado, R$ 47,9 bilhões.
O segundo “fato” citado por Giambiagi é que “o número de brasileiros com 60 anos
ou mais crescerá 4% ao ano de 2010 a 2025”. Desde quando projeções são fatos?
Até onde sabemos, “fato” significa “coisa ou ação feita, acontecimento. Aquilo
que é real”. Como observou Carlos Lopes, em artigo recente na Hora do Povo, “a
demografia é condicionada pela situação econômica. Por exemplo, é sabido que a
expansão econômica capitalista sempre cria uma ‘superpopulação’, pela própria
necessidade de um ‘exército industrial de reserva’. Assim, dizer que 4% da
população, em 1980, estava na faixa acima dos 65 anos, subindo para 5,4% em
2000, e, por isso, essa percentagem será de 8,7% em 2020, de 15,3% em 2040 e de
18,8% em 2050, não passa de idiotice (...) ninguém garante que isso será assim.
Por que razão a taxa de crescimento (ou redução) populacional (ou a variação
dessa taxa) se manterá estável no período que vai de 2007 até 2050?”
Antes de entrarmos nas outras questões é necessário deixar claro que o motivo de
todo esse terrorismo sobre déficit da Previdência é desmontar a Seguridade
Social, reduzir seus recursos para desviá-los ainda mais para os juros. Sobre
este ponto, os economistas Eduardo Fagnani e José Carlos Cardoso fizeram uma
afirmação importante: “A Previdência é o segundo maior item de gasto corrente.
Daí a fome do mercado pela reforma e captura desses recursos”.
Em seu artigo, Giambiagi reclama ainda de ter sido chamado de "porta-voz dos
setores conservadores". Num de seus “estudos”, ("Texto para Discussão, 1.050",
do Ipea), Giambiagi cita um evento histórico que é fortemente revelador, não só
da sua origem e referência polícia, mas também dos métodos utilizados para
falsificar os “fatos”. Diz o texto: “Nos agitados meses que se seguiram ao
suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, utilizando as páginas da Tribuna da
Imprensa para a pregação em que estava empenhado na época (...) Carlos Lacerda
esboçou o que deveria ser um programa integral de reformas, dizendo, entre
outras coisas, que: ‘é preciso (...) uma reforma da previdência social (...),
livrando os institutos da falência em que se encontram’”. Giambiagi ressalta que
“o comentário de Lacerda tem 50 anos e o tema da necessidade de fazer uma ampla
reforma do sistema de seguridade social no Brasil continua na ordem do dia”.
Após esta revelação, é desnecessário maiores comentários, a não ser lembrarmos
que nem a Previdência faliu, nem Lacerda foi elevado a grande patriota, bem pelo
contrário.
Em seus artigos e em suas exposições, Giambiagi se esmera em proferir pérolas
que dariam inveja até em Lacerda, tais como os aumentos reais do salário mínimo
e do piso previdenciário “foram extremamente generosos”, que os aposentados se
acham “sempre prejudicados”, mas o “fato é que o país” tem “regras muito
benevolentes de aposentadoria”, entre outras. Para acabar com a farra desse povo
que trabalha na roça, nas construções, nas fábricas e em casas de família,
Giambiagi propõe a redução da pensão por morte, a desvinculação do aumento das
aposentadorias do salário mínimo, a redução das pensões pagas pelo Loas, o
aumento da idade mínima para 70 anos neste caso e, apesar de negar em seu último
artigo, o aumento da idade mínima para requerer a aposentadoria, fixando em 67
anos (Homens) e 66 (Mulheres).
O propagandista da privatização afirma que não renega “a existência do Estado”.
No entanto, ninguém o acusou disso, visto que os próprios monopolistas também
não renegam, eles apenas operam para que o Estado centralize os recursos da
produção para colocá-los em seus bolsos. Portanto, é por isso que os
neoliberais, cujo programa foi rejeitado nas urnas, tentam por todos os lados
reduzir recursos para investimentos e para o bem estar do povo. A intenção é
aumentar os recursos destinados para os especuladores estrangeiros e Giambiagi
nem disfarça ao defender o superávit primário de 5%.
Em suma, para Giambiagi, o que atrapalha o Brasil é o povo brasileiro, que é
muito folgado. Se os brasileiros trabalharem até morrer e o dinheiro for parar
nas mãos dos monopólios estrangeiros, o problema estará resolvido.
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