Fundos de pensões latino-americanos:
Um negócio perfeito para os bancos espanhóis
Neste artigo, que publicamos na íntegra,
Alberto Montero Soler, professor de Economia Política da
Universidade de Málaga, na Espanha, denuncia as
falsificações sobre as supostas falências dos sistemas
previdenciários na América Latina com a intenção de abrir
caminho para a sua privatização
Alberto Montero Soler
Rebelión: 30/07/2007
Que os fundos acumulados nos sistemas
públicos de pensões são um dos principais objetivos dos
grandes bancos, e que estes não medem esforços para
consegui-los, não é nenhuma novidade.
Na Europa, os estudos que demonstram os
problemas financeiros dos sistemas públicos de pensões (para
justificar a transferência destes para a iniciativa privada)
são tão numerosos quanto errôneos, e este tipo de
diagnóstico é costumeiro.
Porém, em alguns países (como a Espanha, por
exemplo) têm-se conseguido alguns avanços no sentido de
forçar os governantes a divulgarem prognósticos com
exatidão. E os governos só não avançam mais na questão das
privatizações porque têm conhecimento da impopularidade
desta medida e da conseqüente rejeição popular que teriam
que enfrentar.
Para tentar vencer essa rejeição, o governo
espanhol não só facilita investimentos para os pesquisadores
que vêm errando suas projeções continuamente, mas também
favorece com incentivos fiscais a contratação de fundos de
pensão privados como forma de complemento.
O objetivo dessas medidas é evidente: elas
apontam a realização de uma manobra que dê legitimidade,
facilite e viabilize um progressivo processo de privatização
de todo o sistema público de pensões no país.
De um lado, os governantes se apegam à
“legitimidade” técnica dos resultados apresentados por
aqueles que supõem entender dessa questão (os tecnocratas);
estes, por sua vez, se encarregam de alardear de forma
contínua que o sistema público se tornará insustentável a
médio prazo.
Por outro lado, os governantes também tentam
conseguir apoio popular. Para isso estudam formas de atrair
o maior número possível de pessoas: quanto mais pessoas
contratarem os fundos de pensão privados, menor será a
possibilidade de que elas estejam enganadas. Dessa forma, a
segurança de ter uma pensão garantida na aposentadoria
passará a ser um problema individual, e não mais um problema
que poderia pressionar politicamente as autoridades públicas
a continuar garantindo esse direito. O lema parece ser “a
maioria nunca se engana” e, portanto, seguir o comportamento
da maioria seria o correto.
Também não é nenhuma novidade que os
processos de privatização dos sistemas públicos de pensões
encontraram um terreno fértil durante a sua implantação na
América Latina nas décadas de 80 e 90. Estes processos foram
incentivados desde o início pelo Banco Mundial, que os
converteu em “condições necessárias” para a aquisição de
empréstimos e financiamentos pelos países que recorriam ao
Banco.
As principais entidades financeiras do
ocidente, inclusive as espanholas, se lançaram sobre a
América Latina como “aves de rapina” em busca de um grande
banquete. Durante esse período a iniciativa privada se
vendeu como a “salvação da lavoura” frente à suposta
ineficiência da gestão pública.
Dessa forma os sistemas de distribuição,
baseados na solidariedade entre gerações, foram
sistematicamente substituídos por fundos de capitalização
privados ou por sistemas mistos que desempenhavam um papel
preponderante na gestão privada e mais concretamente nas
empresas administradoras dos fundos, que por sua vez eram e
são controladas pelos grandes impérios financeiros.
Evidentemente o discurso que envolveu todos
esses processos nunca conseguiu justificar o papel das
privatizações face aos benefícios (lucros) que conseguiram
as empresas financeiras privadas, que enriqueceram com o
negócio. Muito pelo contrário, ainda lhe atribuiu uma
natureza quase messiânica frente à suposta falência do setor
a curto prazo somado à ineficiência pública, considerada
incapaz de gerenciar o sistema. Era necessária aos fundos a
iniciativa privada, mais experiente na rentabilização
financeira dos ativos e que contribuiria de forma decisiva
na preservação da segurança econômica dos trabalhadores,
quando seu tempo de trabalho útil se extinguisse.
Não obstante (e como geralmente acontece),
quando a retórica se pôs a serviço dos interesses dos
poderosos, a realidade passou a ser outra, passou a
percorrer outros caminhos que não condizem com a verdade.
Porém, não demorou muito para o próprio Banco
Mundial reconhecer o engano e não ter outra opção senão a de
reconhecer um retumbante fracasso nas reformas dos sistemas
de aposentadorias privadas na América Latina. O próprio
banco acabou por lançar um polêmico informe intitulado
“Mantendo a Promessa da Segurança Social na América Latina,
2004” (Keeping the Promise of Social Security en Latin
America, 2004). Neste informe ele acabou por defender a
reconstrução dos sistemas públicos para a universalização da
cobertura. Eles constataram que a maioria das classes
trabalhadoras tinha sido excluída totalmente do sistema de
segurança social (com exceção do que ocorria no Chile, a
média de cobertura do sistema alcançava apenas 20%), o que
resultaria num grande aumento de pobreza entre os
aposentados.
Além disso, o Banco Mundial também levantou
dúvidas com relação às gestões privadas dos fundos e
denunciou as comissões exorbitantes e excessivas que as
administradoras impunham aos fundos de pensão,
aproveitando-se de sua clara posição de oligarquia.
A primeira prova disso foi evidenciada
durante a compra efetuada pelo Banco Santander do restante
das operadoras de fundos existentes na América Latina, em
uma operação que movimentou 950 milhões de Euros. Esta
compra resultou num lucro de 600 milhões de Euros.
E todo esse lucro foi conseguido às custas de
oferecer um serviço ineficiente e caro, que não atende às
necessidades de quem não pode contribuir com o sistema. Além
disso, essa manobra contribuiu para enfraquecer a essência
dos sistemas de segurança social, minando a solidariedade
intra-comunitária, semeando incertezas e miséria. Este será
o horizonte mais provável para a maior parte da população
quando a capacidade de trabalhar lhes faltar e tiverem que
viver à sombra dos benefícios das aposentadorias.
É aqui que se encontra o “x” da questão: a
suposta crise que aquelas reformas se pré-dispuseram a
antecipar transfiguraram toda a natureza do setor. Se,
então, foi uma crise financeira (cuja realidade os grandes
bancos previram e que foi apadrinhada pelo Banco Mundial)
que começou tudo, a próxima será uma crise social de grande
magnitude e que afetará (como sempre) os mais pobres. E não
há indícios de que haja grande interesse das autoridades de
se antecipar ao problema. No entanto, enquanto isso, Botín
(presidente do Banco Santander) recolhe os lucros e, como
sempre, “ganham os bancos”.
Texto original: Alberto Montero Soler,
Professor de Economia Política da Universidade de Málaga,
Espanha.