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Laboratórios
dos EUA infectaram milhares em vários países com HIV
ALESSANDRO
RODRIGUES
Multinacionais
compravam sangue de doadores contaminados para produzir medicamentos contra a
hepatite e, para aumentar lucros, usavam o mesmo sangue - de usuários de drogas
injetáveis, prostitutas e homossexuais de vida sexual promíscua - para
produzir os medicamentos para hemofílicos
“No
meu caso, o HIV se desenvolveu para a Aids. Quando fui infectado eu era
adolescente e tive que parar de estudar e trabalhar. Isso é inaceitável: você
confiar em uma empresa que vende medicamentos supostamente para salvar a vida,
mas que na verdade tira a vida das pessoas. Não existe nada que pague o que
aconteceu, que pague uma vida. Mas nós esperamos justiça”, afirmou Adriano,
29 anos, morador do bairro da Penha, Zona Leste de São Paulo, que foi infectado
com o vírus HIV em 1985, através da utilização de medicamentos para
hemofilia contaminados, distribuídos por laboratórios norte-americanos.
Essa
e muitas outras histórias semelhantes ocorreram em vários países do mundo,
atingindo milhares de famílias inocentes, que viram suas vidas destruídas ou
alteradas em virtude da ganância e do descaso de um grupo de laboratórios que
espalharam pelo Planeta medicamentos contaminados com HIV e Hepatite C.
CARTEL
DO SANGUE
Um
processo judicial movido por hemofílicos contaminados em vários países no
Tribunal do Distrito Norte da Califórnia, nos Estados Unidos, exigindo indenizações
dos laboratórios Baxter Corporation, Aventis Behring LLC, Apha therapeutic e
Cutter Biological, subsidiária da alemã Bayer, trouxe á tona um crime
inescrupuloso cometido na década de 80, quando esses laboratórios compravam
intencionalmente sangue de doadores contaminados com Hepatite para produzir
vacinas e utilizavam o mesmo plasma para produzir os medicamentos para os hemofílicos.
“Apesar
de saberem que os produtos eram fabricados com a participação de doadores
doentes, de alto risco ou contaminados com os vírus que causam Aids e Hepatite
C, as rés continuaram a vender estes produtos a hemofílicos no estrangeiro
mesmo depois que os produtos já não eram mais utilizados nos Estados Unidos
devido ao conhecido risco de transmissão de Aids e Hepatite C”, descreve o
processo movido pelos hemofílicos infectados.
As
dificuldades de vida de um portador de hemofilia - basicamente, a dificuldade de
cicatrização e as hemorragias - foram minimizadas com a fabricação
industrial de dois fatores sanguíneos, o Fator VIII e Fator IX, imprescindíveis
à coagulação. Porém, desde o início de sua comercialização, no final dos
anos 60, médicos norte-americanos detectaram uma série de efeitos associados
ao uso desses produtos. Em 1976, um órgão de saúde do governo dos EUA
constatou uma série de enfermidades causadas nos usuários de Fator VIII e IX,
como disfunções no fígado, aumento do baço, Hepatite B e uma Hepatite
diferente da A e da B que mais tarde foi denominada como Hepatite C. Foi
identificado como causa a utilização de sangue coletado em grupos de risco,
como viciados, presos, homossexuais com vida sexual promíscua e prostitutas que
vendiam seu sangue aos laboratórios que produziam os Fatores VIII e IX.
Como
solução para reduzir os riscos de contaminação, os laboratórios foram
orientados para que eliminassem da lista de doadores, através de questionários,
os usuários de drogas intra-venosas, os homossexuais, as prostitutas e os
presidiários, justamente as pessoas mais expostas ao contágio da Hepatite. E
mais: que fosse feito o teste de alanina aminotrasferase (ALT), que indicava a
presença de Hepatite, e que já estava disponível desde 1974.
CRIME
E LUCRO
O
descaso com os seres humanos e a busca pelo lucro fácil, no entanto,
prevaleceu. O Fator VIII e IX eram apenas dois dos 17 produtos que podiam ser
fabricados com o plasma humano, através do processo de fracionamento. Em
especial, os derivados de sangue com nível de anticorpos muito altos tinham um
retorno financeiro maior, porque, a partir dele os laboratórios podiam também
produzir imunoglobina de Hepatite B, um produto que confere imunidade temporária
ao vírus da Hepatite B. Com o mesmo sangue infectado com Hepatite, os laboratórios
produziam o Fator VIII e IX. Assim, lucravam ao mesmo tempo com os medicamentos
para Hepatite e com os medicamentos para Hemofilia aproveitando a mesma coleta
de sangue.
Determinados
a lucrar, mesmo que à custa de vidas humanas, os monopólios farmacêuticos
transnacionais não só ignoraram o fato de produzir medicamento com o sangue
contendo grande potencialidade de contaminação, como partiram para recrutar,
como doadores pagos, as pessoas com potencialidades maiores de estarem
infectadas. Afinal, o sangue de um doador saudável não tinha o mesmo retorno
financeiro. O “público-alvo” era o que mais precisava de dinheiro - e que
também eram os que tinham chances maiores de portar Hepatite: viciados em
drogas injetáveis, homossexuais com vida promíscua, presos, prostitutas e
mendigos. Para tanto, os laboratórios chegaram a colocar anúncios em revistas
gays, conclamando-os a vender seu sangue.
“As
rés, assim, buscaram maximizar os lucros, produzindo tantos produtos quanto
possível com um litro de plasma, ignorando os padrões da indústria que
impediam a utilização de plasma de alta titulação (com muitos anticorpos)
para outros produtos terapêuticos”, afirma a ação movida pelas pessoas
contaminadas.
No
final dos anos 70 e começo dos 80, especificamente em 1977, foi descoberto que
era possível implementar um tratamento com calor ou solvente nos medicamentos
produzidos com plasma, que eliminaria por completo os riscos de contaminação.
É claro que isso aumentaria os custos dos laboratórios, que ignoraram o fato.
AIDS
SE ESPALHA
Em
1982, relatórios médicos descreveram os primeiros casos de Aids em hemofílicos,
fazendo com que autoridades do governo recomendassem a utilização de testes
para eliminar os doadores com sangue contaminado com HIV e Hepatite C. Tudo foi
ignorado e o processo de produção continuou como antes. Em 13 de dezembro de
1983, veio à tona um memorando de um executivo da Cutter, remetido à diretoria
do laboratório, relatando um encontro entre os representantes do cartel do
sangue em que traçaram “estratégias” para “atrasar a implementação”
da obrigatoriedade de se efetuar os testes de contaminação nos doadores para não
ampliar os custos de produção.
Entre
1983 e 1985, depois de milhares de pessoas terem sido contaminadas, os laboratórios
foram obrigados a parar de vender nos Estados Unidos o concentrado de Fator VIII
e IX não tratados e tiveram que produzir um produto mais seguro, com tratamento
de calor que eliminava as chances de transmissão do HIV e Hepatite, algo que já
poderia ter sido feito anos antes, poupando milhares de vidas.
ESTOQUES
CONTAMINADOS
Outro
problema surgiu para os laboratórios. O que fazer com os estoques contaminados
que ocupavam seus depósitos? Queimar? Jogar fora? E o prejuízo? Nesse momento,
uma decisão ainda mais desumana e diabólica foi tomada, isto é, despejar os
estoques contaminados pelo mundo, em especial, na América Latina.
Além
de já saberem da contaminação muitos anos antes, um relatório do Centro Para
Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), de outubro de 1984, destacava que
74% dos hemofílicos que usaram produtos não tratados com calor eram HIV
positivos, ou seja, que se esses medicamentos infectados fossem usados, iriam
contaminar as pessoas com HIV e HCV. Foi exatamente isso que os laboratórios
fizeram: venderam os produtos contaminados para outros países.
“Os
esforços das rés para maximizar os custos foram feitos às custas da saúde e
das vidas de milhares de hemofílicos em todo o mundo que foram
desnecessariamente infectados com HIV e, ou, com HCV”, afirma o processo.
BRASIL:
9 MIL INFECTADOS
Somente
no Brasil, o Núcleo de Atendimento Jurídico aos Hemofílicos, estima que 9 mil
pessoas foram infectadas com HIV ou HCV. Até 1992, 5 mil hemofílicos europeus
foram contaminados com o vírus HIV em virtude do uso do Fator VIII e IX. Na
Inglaterra, 34% dos hemofílicos estavam com Aids, e esse número de infecção
é semelhante no Japão, Taiwan e em outros países que importaram esses
produtos.
A
ação dos laboratórios “não apenas prejudicou e reduziu a vida dos hemofílicos
que usaram seus produtos contaminados, mas prejudicou gravemente suas famílias
e esposas. Muitos hemofílicos infectados, sem saber, transmitiram HIV e HCV
para suas esposas que, em muitos casos, as esposas infectadas transmitiram HIV a
seus filhos. Outros hemofílicos desistiram de ter filhos ou suas esposas
fizeram abortos por medo de transmitir a doença a seus filhos ou não
sobreviverem para dar atenção, carinho e acompanhar o crescimento dos
filhos”, afirmou o carioca Luiz de Souza e Silva, responsável pelo Núcleo de
Atendimento Jurídico aos Hemofílicos.
PRIMEIRO
PROCESSO
Cerca
de 10 mil hemofílicos infectados nos Estados Unidos entraram com processos na
Justiça norte-americana a partir de 1993 e foram vitoriosos, recebendo cerca de
US$ 100 mil cada um.
O
Núcleo criado no Brasil para apoiar os hemofílicos contaminados e as famílias
dos que morreram em virtude desta contaminação corre contra o tempo.
Encerra-se no dia 17 de setembro deste ano o prazo para ingressar na Justiça
norte-americana solicitando indenização. “Gostaríamos que todos os hemofílicos,
de todas as cidades e do interior, tivessem conhecimento de seus direitos à
indenização pelos danos causados por esses medicamentos, assim como os
parentes de hemofílicos falecidos”, afirmou Luiz de Souza. Maiores informações
podem ser obtidas pelo telefone (21) 2507-4195. As ligações podem ser feitas a
cobrar.

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