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Após
Petrobrás descobrir jazida colossal, ANP quer leiloar a área
Com
a eleição do presidente Lula, sem as amarras que haviam sido impostas
anteriormente, em pouquíssimo tempo, a Petrobrás acrescentou 60% de reservas
de petróleo ao Brasil. Um trabalho hercúleo, principalmente no BC-60, aumentou
nossas reservas em 2,5 bilhões de barris. É 70% dessa área que agora a ANP
quer leiloar
PAULO
EDUARDO D. CARDOSO
A
ANP (Agência Nacional do Petróleo) mantém, para os dias 17 e 18 próximos, a
6ª rodada de licitações para áreas destinadas à prospecção, exploração
e produção de petróleo. Nessa rodada vão a leilão áreas do bloco BC-60,
onde a Petrobrás vinha realizando estudos, e que foi obrigada a devolver, em
agosto de 2003, devido a uma interpretação do artigo 33 da lei ainda vigente.
A Petrobrás já anunciou que até o final de 2005 o Brasil será
auto-suficiente
em petróleo. A ANP
mantém conduta que visa levar a Petrobrás a ficar subdimensionada em áreas a
serem exploradas. Esta é a forma mais perversa de limitar a Petrobrás, que é
hoje uma das mais integradas e auto-suficientes - técnica e financeiramente -
empresas do mundo, apesar de todas as seqüelas de gestões recentes, que
ceifaram vidas e levaram à perda de colossais equipamentos, como a P-36.
Colocar em risco o planejamento estratégico da Petrobrás é um desserviço ao
Brasil. Esse tem sido o papel da ANP.
Desenvolvimento
nacional requer reservas de 40 bi de barris. Hoje o Brasil consome em torno de
2.000.000 de barris de petróleo por dia, o que necessita de uma reserva anual a
ser consumida da ordem de 730 milhões de barris. Com os já anunciados 4,5% de
taxa de crescimento anual, o consumo de petróleo será de 9 bilhões de barris
nos próximos 10 anos, o que representa cerca de 55% de nossas reservas atuais.
Crescendo 7%, ou mais ao ano, o que já aconteceu por décadas, e é uma taxa
conseqüente e necessária para o Brasil poder enfrentar definitivamente seus
graves problemas sociais, o consumo acumulado em dez anos seria de 10,8 bilhões
de barris, o que representaria consumir cerca de 65% de nossas atuais reservas.
No
final de 10 anos, o Brasil estará inexoravelmente consumindo 3.000.000 de
barris/dia; ou até 4.000.000 de barris/dia. Hoje, nossas reservas medidas podem
nos abastecer por cerca de 16 anos. Um horizonte
seguro é uma exigência diante do quadro mundial e aponta a necessidade
do Brasil ter reservas para 25 anos, o que equivale a 40 bilhões de barris.
O
Brasil é riquíssimo em alternativas e podemos continuar a ter uma das matrizes
energéticas mais integradas e duradouras. Correr risco com nosso petróleo,
principalmente agora quando se agudizam as rapinagens petroleiras, é querer
atrelá-lo ao incêndio ateado pelos EUA. O México atrelou suas reservas e
produção ao pagamento de dívidas, produziu petróleo para suprir o desperdício
desenfreado que os EUA praticam. Suas reservas, que eram de 50,9 bilhões de
barris em 1993, ficaram reduzidas a 12,6 bilhões de barris em
2002. A
Pemex, sua estatal, tem hoje horizontes sombrios.
POLÍTICA
JUSTA E RESULTADOS
Com
a eleição do presidente Lula, no exíguo período de 2003/2004, sem as amarras
que haviam sido impostas anteriormente, a Petrobrás acrescentou mais 60% de
reservas de petróleo ao Brasil e alcançamos 16,5 bilhões de barris de
reservas. Um trabalho hercúleo desenvolvido de janeiro a agosto de 2003,
principalmente no BC-60 parte sul - que correspondente a cerca de 30% da área
do bloco -, aumentou nossas reservas em 2,5 bilhões de barris. Uma seqüência
inédita de precisas perfurações em águas profundas foi realizada com
absoluto sucesso. Só essa descoberta é do vulto de toda a reserva atual da
Argentina. Hoje, no Continente americano, o Brasil é o detentor das maiores
reservas depois da Venezuela e dos EUA.
A
política industrial do governo atual tem um de seus alicerces nas encomendas
com conteúdo nacional de equipamentos e serviços que a Petrobrás voltou a
realizar, desempenhando seu papel indutor imprescindível ao desenvolvimento do
Brasil.
Rapidamente
a indústria naval vem se soerguendo e dezenas de milhares de empregos surgiram
principalmente no Estado do Rio de Janeiro. Recentemente, em encontro realizado
em São Paulo
, 1.500 empresários aplaudiram entusiasticamente essas medidas do governo
operadas pela Petrobrás. As gestões anteriores, como não conseguiam arruinar
a saúde financeira da Petrobrás, a obrigaram até a comprar empresas que já
compunham passivos bancários, e a participar subalternamente em consórcios de
exploração. Quando veio o apagão, correram procurando se salvar e colocaram a
Petrobras em parcerias para a produção de energia elétrica: as termoelétricas
com consórcios falidos. Hoje a Petrobras arcou com todos os encargos e já
colocou em teste a maior usina termoelétrica à gás da América Latina, a
TermoRio no município de Duque de Caxias.
Diante
do desastre que aconteceu no setor elétrico, o presidente Lula enviou o Projeto
de Lei nº 3337/2004, em 12 de abril desse ano, ao Congresso Nacional, mudando
uma série de regras das agências. Pela proposta, a ANP perde a incumbência de
poder concedente e fica com o poder de licitações e de regulação, passando o
órgão executivo, isto é, o Ministério das Minas e Energia, a ser quem
concede as áreas a serem exploradas. Um dos exemplos mais atuais de preservar o
patrimônio é o da Noruega, cujas reservas atingem cerca de 10 bilhões de
barris; é uma exportadora, mas sua estatal, a Statoil, recebe as melhores áreas
sem ter que participar de licitações.
ANP:
CHOQUE ABERTO
A
partir de 1997, quando a ANP começou a baixar normas para a exploração com
prazos reduzidíssimos, inicia-se uma nova tentativa de minar a Petrobrás, a única
a ter campos a prospectar. Seria, assim, obrigada a devolvê-los. Era a ANP
fazendo o seu “book” para se oferecer às empresas multinacionais.
Ofereceram uma “indenização” a Petrobrás. Um salvo conduto para os seus
intentos e passos seguintes. Tomaram os estudos e projetos em áreas altamente
promissoras e impediram a Petrobrás
de investir os recursos que eram necessários à produção. Em agosto de 2003,
por imposição do artigo 33 da lei ainda vigente, 70% do BC-60 foi devolvido
pela Petrobrás para a ANP.
Durante
anos a Petrobrás estudou, pesquisou e criou um modelo ímpar de exploração e
produção de petróleo. Mesmo com os recentes sucessos obtidos pela Petrobrás,
os diretores da herança maldita na ANP dizem que “hoje não há capacidade de
investimentos por parte do Brasil” e “temos que fazer a 6ª rodada para que
o Brasil tenha reservas para a auto-suficiência, como para exportar”.
O
presidente em exercício da ANP, Sebastião Barros, afirma ser necessário mais
uns cinco anos para que o setor esteja dentro das “regulamentações” da ANP.
Diz que hoje ainda vivemos uma quase situação de monopólio da produção por
intermédio da Petrobrás, e que isso vai mudar, mas precisa de um tempo. Diz
que hoje a Shell já produz 57.700 barris de petróleo em Bijupirá /Salema e
que diversas empresas já estão prospectando. Lamuria-se: “Fura-se pouco no
Brasil, os EUA furam muito mais”.
O
campo de Bijupirá/Salema, desenvolvido pela Petrobrás e produzindo petróleo
leve com API-31, que pode ser utilizado nas refinarias nacionais, está voltado
exclusivamente para a exportação porque a Odebrecht, tendo 80% do contrato, o
vendeu para a Shell, e esta assim ficou dona dessas reservas e anda fazendo
delas o que bem entende. Mesmo que isso não seja do interesse nacional.
Quando
a Petrobrás descobriu as gigantescas reservas de gás defronte a Ipanema, na
Bacia de Santos, ela prospectou áreas que já haviam estado em contratos de
risco com as conhecidas “eficientes” e “investidoras” empresas
estrangeiras. Os modelos de perfuração da Petrobrás são eficientíssimos,
ponta da tecnologia em águas profundas. A buraqueira comparativa dos texanos é
buraqueira mesmo. Recentemente duas outras empresas nacionais iniciaram produção
em terra, em lentes, principalmente no Recôncavo Baiano, em áreas que a
Petrobrás, devido às dimensões de sua estrutura, pode considerar áreas a
serem repassadas e passíveis de interesse por parte de outras empresas menores.
MENTIRAS,
EMBUSTE E ENTREGA
Convidados
pelo Clube de Engenharia para expor os motivos da 6ª rodada, o diretor da ANP,
John Forman, acompanhado pelo responsável de licitações Milton Franke,
realizaram no dia 28 de junho uma explanação para o Conselho Diretor. John
Forman iniciou: “Tive aí a visita do presidente Raymundo de Oliveira, há um
mês, conversamos um pouco sobre a ANP, sobre o que ela faz, as licitações de
blocos, e identifiquei que nosso presidente, como de resto parte da sociedade
brasileira, não conhecem a indústria do petróleo,..., calma, e como não
conhecem a indústria do petróleo,...(protestos), calma vou explicar, calma...,
vou explicar, aí no sentido de toda a sua estrutura atual, o que se pretendeu,
o que se pretende e qual o papel de uma agência reguladora. Foi nesse sentido,
Dr. Raymundo, e não no sentido de conhecer o petróleo, pois aí é ignorar o
seu passado petroleiro, seria demais”. Isso, na Casa da Engenharia Nacional.
John Forman disse que: “somente as áreas exploratórias, sem descobertas, estão
sendo licitadas”, procurando escamotear o leilão do BC-
60, a
área azul da Petrobrás. Afirmou: “Se continuarmos a não fazer licitações,
a área para concessão em 2010 seria praticamente nula”. Explicou como se
medem: “são usados barris para petróleo e metro cúbico para gás...”.
Admitiu: “O Ministério de Minas e Energia fixará a relação ideal
reservas/produção com objetivos de atender permanentemente a demanda do país”.
Continuou sobre normas da 6ª rodada: A oportunidade para “grandes empresas
com experiência de águas profundas, porque as áreas de grande potencial se
encontram em águas profundas”. Afirmou ainda: “as exportações são um
importante negócio para a Petrobras e não podem ser postas de lado em nome da
auto-suficiência”.
A
Resolução nº 8, de 21 de julho de 2003, do CNPE (Conselho Nacional de Política
Energética), no seu Art. 1º diz: “Estabelecer como política nacional a
expansão de produção de petróleo e gás natural de forma a atingir e manter
a auto-suficiência do País e a intensificação da atividade exploratória,
objetivando incrementar os atuais volumes de reservas do País”. Vez por outra
a Petrobrás exporta petróleo como medida de ajustes à necessidade de seu
refino.
O
presidente do Clube, Raymundo de Oliveira, e os conselheiros Siqueira, Brandão,
Sólon, Heitor, Cavalheiro questionaram. John Forman em suas respostas utilizou
números e conceitos viciados. As reservas variaram de 12,5 bilhões de barris
“a coisa de 15, 16 bilhões de barris”. Incorporava e desincorporava as
novas reservas da Petrobrás. Áreas de bacias sedimentares com derrames basálticos,
viraram áreas iguais as que estão sendo prospectadas em bacias sedimentares.
Áreas contíguas a áreas já existentes, viraram áreas super profundas, onde
ainda a tecnologia não existe para a exploração. Perolou: “Se temos hoje
sob concessão menos de 3% de território potencial e temos em números redondos
12 bilhões de barris equivalentes, se multiplicarmos isso por dez, né, pra
dizer que 30% dessa área com capacidade de produção, nós vamos chegar a
alguma coisa, multiplica 12 por 10, são 120 bilhões de barris de petróleo, o
que faria do Brasil uma OPEP”. Forman, que é geólogo, sabe que só 1% das
bacias sedimentares com derrames basálticas do mundo apresentaram condições
de exploração. Se John Forman não sabia, ficou sabendo, pois explicaram a
ele.
ANP
LEVA GRÁFICO FORJADO
O
conselheiro Fernando Siqueira perguntou: “Estive há 15 dias no Ministério
das Minas e Energia com o secretário Maurício Tolmaschin e ele me justificava
a 6ª licitação com um gráfico absolutamente irreal. Era o gráfico que
mostrava a auto-suficiência só sendo atingida em 2008, e sendo perdida em
2009, quando se abria um leque enorme entre consumo e a oferta. Perguntado sobre
de onde tirou aquele gráfico absolutamente defasado em relação ao gráfico do
Planejamento Estratégico da Petrobrás, que prevê a auto-suficiência em 2006
e a duração dela por mais de 8 anos, quando haverá excedentes, ele me
respondeu que aquele gráfico foi fornecido pela ANP.
John
Forman: “o gráfico pode até existir”. Seu responsável de licitações,
Milton Franke, afirmou que “o gráfico existe, sim” e “como você
conseguiu ver esse gráfico? Isso é confidencial”. Isso é o material que a
ANP oferece ao Ministério justificando toda a 6ª rodada. É forjado, seus
dados não levam em conta os dados atuais da Petrobrás. Esses mesmos dados
foram usados pela LandMark, empresa associada à Halliburton, em seminário
em Rio Claro
, interior de São Paulo, no mês de junho. Em recentes reuniões técnicas da
ANP, foram esses dados os apresentados. Milton Franke, em 1993, foi proibido por
portaria de adentrar as dependências do Centro de Pesquisas da Petrobrás, onde
havia sido superintendente, por estar constrangendo seus ex-colegas a fornecer
documentos da empresa.
CAMINHO
DA FRAUDE
Ainda
a resolução nº 8, do CNPE,
em seu Art.2
º, diz que: na implementação da política deverá observar, dentre outras, a
seguinte diretriz: “1- Fixar percentuais mínimos de conteúdo nacional para o
fornecimento de bens e serviços utilizados na exploração e produção de petróleo
e gás natural, ajustando-os permanentemente à evolução da capacidade de
produção da indústria nacional e aos seus limites tecnológicos”. Assim o
conteúdo nacional tão necessário, que o governo vem praticando com a Petrobrás,
passou a ser uma característica intrínseca a qualquer contrato.
O
edital da licitação, posto a público pela ANP, apresenta a necessidade de que
todas as possíveis empresas que entrem na leiloata respeitem três quesitos: 1-
Pagar um bônus a ANP pela área “concedida”; 2- Apresentar um plano onde a
pontuação é pelo número de poços perfurados; 3- Que as empresas apresentem
o percentual de Conteúdo Nacional de Serviços e Equipamentos que serão
utilizados. Propõe que haja “multa” no caso do Conteúdo Nacional proposto
ser desrespeitado.
Na
“apresentação” realizada pela ANP e nas “reuniões técnicas” preparatórias
da 6ª Rodada de Licitações, Milton Franke, responsável pelo edital e por
todo o processo da ANP, mostra que as empresas devem fazer as contas dessas
multas, que elas só serão calculadas no final do processo e início da produção,
cujo prazo pode ser de
10 a
15 anos, que as multas são pela diferença do percentual proposto e o que
poderá ser realizado, e que podem se tornar diminutas diante das
possibilidades. Incentiva o chute para que se obtenha pontuação no quesito.
Podem
as empresas leiloeiras do balcão da ANP chutar 80%, 90% e serem bem pontuadas.
Incentiva a sabotagem à política de conteúdo nacional que começa a dar
frutos. Pode a Petrobrás chutar? Depois de mais de oito anos de desmonte da indústria
nacional de equipamentos, pode alguma empresa chutar? Fica assim aberto o
caminho da fraude. Milton Franke, em todas as explanações desde quando foi
realizada a 5ª Rodada, já fazia carga contra o conteúdo nacional. Agora,
obrigado, o adotou e trabalha para sabotá-lo. Tudo para não deixar os blocos
azuis voltarem para a Petrobrás, que assim terá que trabalhar sob condições
adversas.
O
presidente atual da ANP, Sebastião Barros, em 2003 “anunciou” que a Petrobrás
tinha descoberto uma reserva gigante. No dia seguinte, a especulação aumentava
em 8% os preços das ações da Petrobrás, levando imediatamente a empresa a
ter que desmentir a informação para segurar possíveis privilégios a grupos
de acionistas.
A
ANP pode desempenhar alguma função, mormente no controle e distribuição de
combustível. Mesmo assim, como disse a Ministra Dilma Roussef, “não está na
hora do formulador, mas de aprofundar a fiscalização para impedir a adulteração,
a mistura de solventes. É esse o papel que nós esperamos que a ANP cumpra”.
Recentemente
ao lado da rodovia presidente Dutra,
em Barra Mansa
, 19 carretas eram “abastecidas” com solventes e formulados, em aberta
adulteração, que funcionava há tempos e às claras. A baiúca foi fechada
pela PF. A ANP recentemente fez concessões a elementos suspeitos na área da
distribuição e foi obrigada a cassar essas concessões. A ANP ainda é uma
retorta de adulterações.

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