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Reforma Sindical: Unir esforços para
mudar de fato
Antônio Neto
Pela primeira vez na história do país abre-se a
oportunidade de construirmos uma poderosa organização sindical, unitária,
combativa profundamente democrática.
A Revolução de 30, que edificou a atual estrutura
sindical, e a resistência dos trabalhadores à ditadura, que desembocou na
realização da CONCLAT, criaram os alicerces. A eleição de Lula, um operário,
derrotando, num país da importância do Brasil, o neoliberalismo, tendo
constituído a mais ampla frente de nossa experiência política, com o apoio de
praticamente todo o movimento sindical, completam o cenário. Estas,
evidentemente, são as condições objetivas, absolutamente necessárias, mas não
suficientes. Sempre o mais importante é a vontade e a decisão.
A manifestação do dia 25 de março, convocada pelo
Fórum Sindical dos Trabalhadores (FST), que concentrará dezenas de milhares de
dirigentes sindicais, será o ápice da maior mobilização sindical já realizada no
país. Em Brasília, 300 federações criaram o Fórum, que, constituído, promoveu
plenárias por todo país. As mais expressivas foram as de São Paulo e da região
Sul. Reuniram mais de mil sindicatos cada uma. Esta foi a resposta contundente
do movimento sindical à convocação do presidente Lula que, num dos primeiros
atos logo após a sua posse, se reuniu com 650 dirigentes sindicais, das mais
variadas procedências políticas, e conclamou: “Vocês estão chamados à
reconstrução nacional, vamos a fundo resolver os problemas nacionais e todos
vocês vão ser chamados para ajudar a acabar com a moleza”. A convocação do
presidente Lula era especialmente para a participação dos sindicatos na
discussão da reforma sindical, pelo fim dos “sindicatos de carimbo”. Como disse
o então ministro do Trabalho em visita à sede da CGTB: “Pelo fortalecimento da
representatividade das entidades sindicais”. Com este objetivo o governo criou o
Fórum Nacional do Trabalho (FNT).
A primeira grande discussão, ainda durante a
organização do FNT, foi sobre a participação das confederações nacionais de
trabalhadores. Diferente do critério adotado pelo presidente Lula – que convocou
José Calixto, presidente da CNTI, para todos os encontros que promoveu,
inclusive para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – o Ministério
do Trabalho (MT), a principio, foi contra a participação das confederações. A
CUT e a Força Sindical, que eram contra a participação, deixaram claro em carta
oficial que não colocariam nenhum obstáculo se o Ministério convocasse as
confederações. A muito custo, por insistência da CGTB – precisamos lançar mão do
Regimento que previa a sua aprovação por consenso - a presença da CNTI foi por
fim aceita no Pleno do Fórum, ficando excluída dos grupos tripartites e da
Comissão de Sistematização.
A exclusão, mais propriamente a discriminação, tinha
motivo: a Reforma proposta pretendia - em parte, como veremos, já foi modificada
- a possibilidade da existência de mais de um sindicato, de uma federação e de
uma confederação para uma mesma base. A idéia básica: o Estado reconhece
determinadas centrais baseadas em critérios algo aleatórios de
representatividade e, a partir destas centrais, promove a criação de
confederações, federações e sindicatos, pelas tendências reconhecidas pelo
Estado como representativas dos trabalhadores.
Tanto é assim que a segunda grande polêmica
aconteceu na primeira reunião do Fórum, quando a Secretaria das Relações do
Trabalho propôs como primeiro “objetivo de consenso” o reconhecimento das
centrais sindicais.
Levantamos como alternativa o reconhecimento à
figura da Central, já que reconhecer, a princípio, todas as centrais, sem
discussão, poderia significar admitir que as mesmas tivessem o direito de
organizar as suas próprias confederações, federações e sindicatos já a priori.
Nossa proposta chegou a ser aceita pelo grupo de trabalho tripartite, mas,
acreditamos que pelos mesmos motivos da exclusão das confederações do Fórum, foi
revista, com o nosso voto contra, conforme registro em ata. Por ironia, eram as
confederações, reconhecidas na Constituição Federal, que, na prática, estavam na
ilegalidade do Fórum do Ministério de Trabalho.
A idéia da Secretaria das Relações de Trabalho (SRT)
era – como dissemos, isso já mudou um pouco – aumentar a representatividade das
entidades sindicais, tentando atender a convocação do presidente, só que através
do critério, nada proletário, do mercado, do método da concorrência entre as
entidades sindicais. Nesse sentido, a existência de várias entidades numa mesma
base seria a “alma da democratização”. Na ocasião, a CGTB distribuiu em todo
país um documento de sua Executiva advogando que unicidade e democracia andam
juntas como unha e carne. Que a disputa deveria se dar entre os trabalhadores
através de eleições democráticas. Que só desta forma o reconhecimento e a
representatividade estavam sendo entregues aos trabalhadores, sem interferência
do Estado ou do patrão. Ou seja, que a questão fundamental (e óbvia) é que a
democracia reside na realização de eleições democráticas, no respeito da minoria
à maioria, e que isto é o único caminho para garantir a representatividade das
entidades nos trabalhadores. Aliás, graças a este método já consagrado em nosso
país, Lula derrotou as oligarquias nas eleições e hoje é o presidente de todos
os brasileiros. As entidades, pela lógica da SRT, estariam é disputando o
reconhecimento das instituições internacionais, do Estado e dos patrões, muito
antes que dos trabalhadores. Ao contrário, o apoio buscado nos trabalhadores
estaria na verdade em função daquele reconhecimento. Estaríamos mirando na falta
de representatividade e acertando no coração da democracia e da independência.
Foi uma mobilização geral em defesa da unicidade
sindical e da contribuição sindical obrigatória, mas também foi um profundo
esforço dos dirigentes sindicais em discutir e gerar propostas concretas no
sentido de aperfeiçoar a democracia do movimento sindical e ampliar a sua
representatividade. Além das mobilizações do FST, as DRTS de todo país
promoveram plenárias que reuniram também milhares de sindicatos, nas quais,
conforme foi reconhecido pelo Ministério do Trabalho, a unicidade foi aclamada
por 90% das entidades que se dispuseram a promover mudanças que democratizassem
a estrutura sindical. José Calixto, presidente da mais importante confederação
nacional, resumiu bem a questão: “Estamos dispostos a promover todas as mudanças
necessárias no sentido do aprofundamento da democracia e da representatividade
do movimento sindical dentro do princípio da unicidade sindical”.
O projeto de reforma apresentado pelo FST propõe
profundas mudanças na estrutura do movimento sindical, tais como o
estabelecimento de critérios básicos universais para as eleições nos sindicatos,
nas federações e confederações, constituição de uma comissão de trabalhadores
para o reconhecimento de novas entidades sindicais, com critérios previamente
estabelecidos e o reconhecimento na estrutura sindical da figura jurídica da
central sindical. As entidades, em todos os níveis, manteriam a sua autonomia e
independência. As centrais teriam um papel de articulação política e de
negociação de políticas gerais, como é hoje. Cerram fileiras ainda com a
proposta de organização no local de trabalho, com eleições organizadas pelos
sindicatos, onde os candidatos têm que necessariamente ser sindicalizados. E
colocam como elemento fundamental para a liberdade sindical a regulamentação do
fim da demissão imotivada, conforme previsto na Constituição.
Também a CUT e a SRT avançaram nas propostas
realizadas. Em pelo menos quatro frentes houve uma aproximação entre elas e o
FST. Na proposta, os sindicados de base existentes serão únicos se, em
assembléias, acatarem critérios básicos de representatividade e para a
realização de eleições a serem definidos. A contribuição será obrigatória, terá
um teto máximo de 12% ao ano, com distribuição para todas as instâncias
superiores prevista em Lei para as centrais, confederações, federações e
sindicatos. Terá que ser aprovada em assembléia do sindicato, mas não será
preciso passar pelo crivo do patrão. Criação de comissões bi-partites -
governo/trabalhadores, governo/patrões -, para gerenciarem todo o sistema. Desta
forma, MT e CUT procuravam pontos de unidade com as outras centrais, as
confederações e os patrões (que evidentemente gostaram das propostas de divisão
dos trabalhadores, mas não de divisão da organização sindical empresarial, cuja
unicidade garante, entre outras coisas, o sistema S, que sustenta toda a
estrutura. E desconfiaram que seria meio impossível manter a unicidade para eles
e o chamado pluralismo para os trabalhadores). A Força Sindical e a Confederação
Geral dos Trabalhadores concordaram com a base da nova proposta da CUT e da SRT.
O fato é que o projeto do MT é injustificadamente
contraditório. Um sistema híbrido com divisão nas federações e confederações.
Direito à unicidade para os sindicatos existentes, mas direitos cassados para os
novos. A questão da democracia fica ainda em segundo plano, embora haja
progressos. A proposta avançou, mas ficou como um Frankstein, sem coerência.
A CGTB, na última reunião das centrais, fez uma nova
proposta, observando o pensamento do Presidente Lula, segundo o qual, numa mesa
de negociação é muito difícil que todos saiam satisfeitos, mas o importante é
que todos saiam contemplados. Em nome da coerência, propusemos que a proposta
para os sindicatos fosse estendida para as federações e confederações. Em nome
da possibilidade de podermos obter o consenso em profundas mudanças que
promoveriam uma verdadeira revolução no movimento sindical. Acreditamos que a
discussão não está entre os que são a favor da Reforma e os que são contra.
Queremos mudar para um movimento sindical mais forte, mais democrático e mais
unitário, que, com estas qualidades, possa dar sustentação às mudanças que
o presidente Lula precisará promover. Como já dissemos, Lula, para se eleger,
organizou a mais ampla frente política de nossa história. Mas, a coluna
vertebral deste apoio está nos trabalhadores. É preciso unir amplos setores, os
pensamentos presentes no proletariado, consolidar na base da sociedade esta
frente. Se as confederações estão dispostas a mudar dentro do princípio da
unicidade sindical, se a CUT aceita a exclusividade de representação na base e a
contribuição obrigatória, então as distâncias já não são mais tão grandes. A
conquista do consenso em mudanças tão significativas é infinitamente mais
valiosa de que a hipótese, sem nenhuma garantia, de qualquer proposta tendente á
dissensão.

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