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Uma parceria necessária
Luiz Inácio Lula da Silva
Minha visita ao México é excelente oportunidade para
consolidar a parceria entre dois países que ocupam lugar importante no
continente e devem compartilhar objetivos e aspirações.
México e Brasil são as duas maiores economias da
América Latina, com grau de desenvolvimento e capacitação tecnológica
destacada. Buscamos superar os obstáculos que limitavam e limitam nosso
crescimento e retardam nossa emancipação social. Estamos empenhados em
reverter um quadro secular de pobreza e de concentração perversa de
renda por meio de programas inovadores de transferência de recursos, que
ampliam os direitos cidadãos fundamentais. Não se pode mais aceitar como
fatalidade nem a miséria de uns nem a indiferença de outros.
No momento em que presidente Calderón está iniciando
seu governo, devemos reforçar uma associação que ganha densidade
econômica e aprofunda o diálogo entre nossas sociedades. Essa foi a
mensagem que o então presidente eleito deixou ao visitar o Brasil em
outubro passado. Foi igualmente o tema central dos encontros que
mantivemos em Berlim, à margem das reuniões do G-8 e, antes, em
Georgetown, por ocasião da recente reunião do Grupo do Rio.
México e Brasil conformam um mercado de mais de 300
milhões de pessoas. O fluxo comercial bilateral alcançou, em 2006, o
volume recorde de quase US$6 bilhões. O México já é o sétimo parceiro
comercial do Brasil e o quinto mercado para nossas exportações.
Verifico, com satisfação, que as exportações mexicanas para o Brasil
praticamente dobraram nos últimos três anos, ajudando, assim, nossos
esforços em alcançar maior equilíbrio nas trocas bilaterais. A confiança
no potencial dessa colaboração se expressa no aumento dos investimentos
recíprocos. O México já é a quinta maior fonte de inversões externas no
Brasil. E grandes empresas brasileiras estão incluindo o México em suas
estratégias de expansão.
Mas é pouco. Precisamos aproximar ainda mais nossas
empresas e diversificar o intercâmbio, focalizando novos nichos e
oportunidades de negócios. As negociações em curso para ampliar e
aprofundar o acordo comercial bilateral é um passo auspicioso nessa
direção.
No momento em que o mundo busca respostas para a
segurança energética e a proteção ambiental, México e Brasil podem
forjar uma parceria mais intensa. Há amplas possibilidades de cooperação
para o desenvolvimento tecnológico em matéria de produção e exploração
de petróleo e gás natural, em águas profundas. No campo dos
biocombustíveis, o Brasil espera contar com o México na campanha para
estabelecer um mercado mundial para combustíveis mais limpos, baratos e
renováveis.Temos a oportunidade de democratizar o acesso a novas fontes
energéticas, multiplicando a geração de empregos e renda e
diversificando a matriz energética, levando em conta as necessidades de
nossos agricultores e garantindo a produção de alimentos para todos.
Não há outro caminho para a inserção competitiva de
nossa região numa economia internacional cada vez mais globalizada fora
do aproveitamento inteligente de nossas sinergias políticas e
complementaridades geoeconômicas. Por isso, tenho defendido a construção
na América do Sul de um espaço economicamente integrado, socialmente
solidário e politicamente democrático. São esses mesmos valores que me
fizeram incluir também a América Central e o Caribe nesta minha viagem.
Sei que o México vem desenvolvendo projeto de integração com seus
vizinhos na fronteira Sul, com ênfase na construção de uma
infra-estrutura física.
Em nosso continente, não precisamos de muros.
Precisamos de estradas, pontes, gasodutos e linhas de transmissão. A
verdadeira integração faz circular livremente não apenas mercadorias e
serviços, mas também pessoas e idéias.
No entanto, a parceria que estamos construindo
dificilmente prosperará num ambiente internacional marcado por uma
globalização tão desigual e arbitrária. Alguns dos principais desafios
da governança mundial reforçam a urgência de respostas coletivas que
tenham legitimidade e eficácia. A fome, o terrorismo, os desastres
ambientais não escolhem suas vítimas e não respeitam fronteiras.
Ao mesmo tempo, os novos e acelerados movimentos dos
fluxos de capitais, de comércio e de investimentos atestam o surgimento
de novos pólos dinâmicos no cenário internacional. Cabe ao México e ao
Brasil ocupar seu espaço nesse processo, ao lado das demais economias
emergentes.
A comunidade internacional vê cada vez mais nossos
países como interlocutores fundamentais em um cenário global de
crescente complexidade e incerteza. Somos chamados a assumir
responsabilidades para forjar novos consensos em torno dos temas
prioritários da agenda internacional.
Nossos países têm muito a dizer e a contribuir.
Estamos decididos a intervir na conformação de novas regras e
procedimentos no cenário internacional.
Defendemos - mesmo que com diferenças de enfoque -
uma reforma das Nações Unidas, instituição que necessita maior
legitimidade e eficácia. No âmbito do G-20, estamos empenhados na
eliminação dos subsídios bilionários que impedem que o comércio seja uma
alavanca do desenvolvimento, capaz de recompensar a criatividade e a
competitividade de nossa gente. No Haiti, onde o Brasil exerce o comando
da força de estabilização integrada por muitos países latino-americanos,
o México tem participado de programas de reconstrução necessários para
lograr a verdadeira paz naquele país.
Volto ao México com a esperança de que estejamos
entrando em um novo momento de nossas relações, capaz de dar nova
qualidade a nossas relações. Relações que transcendem governos e estão
assentadas na vontade comum de nossos povos de dar um novo rumo a nosso
continente e a nossas sociedades.
Luiz Inácio Lula da Silva é presidente da
República.

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