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Os crimes sem punição da Casa Branca
*DANIEL ELLSBERG
No dia em que a sentença de prisão de Scooter Libby
foi revogada pelo presidente Bush, Mordechai Vanunu foi sentenciado a
prisão, novamente, em Israel. Em ambos os casos, a justificativa
fundamental é a mesma: conversar com jornalistas. Porém em cada caso, as
acusações nominais foram diferentes. Contra Libby, mentir sob juramento
sobre as circunstâncias e, por meio disso, obstruir a justiça. Já para
Vanunu, a acusação é a de quebra de uma ordem restritiva de quando saiu
da prisão há três anos, depois de cumprir integralmente uma sentença de
18 anos, também por conversar com jornalistas: ele foi ordenado a não
falar, em nenhuma hipótese, com jornalistas ou estrangeiros. Como um
homem livre ele fez ambos, aberta e repetidamente.
Mas enquanto Libby vazava informações secretas, desta
vez Vanunu não foi acusado de revelar nada secreto. As transcrições e
notas publicadas de suas conversas disponíveis são claramente conhecidas
e o que ele falou era a verdade de suas convicções pessoais sobre armas
nucleares: de que elas deveriam ser abolidas, em Israel inclusive.
PERJÚRIO
Perjúrio, com a intenção e efeito de obstrução de
justiça (com sucesso, como ocorreu no caso Libby) é um crime antigo,
considerado crime sob praticamente qualquer sistema jurídico. O ato de
Vanunu de falar o que sua mente livre diz não é, sob a existente lei dos
direitos humanos internacional. E não é crime doméstico em outras
sociedades democráticas. Aquele não é portanto sujeito a atos de perdão
como frequentemente distorcido. Quanto a Vanunu, não foi perdoado da
prisão por suas convicções na vez anterior, mas cumpriu a sentença
completa de dezoito anos. Onze e meio em confinamento em solitária,
quando sob a maioria dos sistemas de justiça criminal, ele não deveria
ter sido alvo de qualquer restrição ou exigências.
Qual, então, é o status legal das restrições às quais
ele foi sentenciado? A resposta é que a lei israelense, na qual seu
discurso e seu movimento são restringidos, é uma relíquia não modificada
do Mandato Britânico na Palestina, ou seja, uma regulação colonial. Nada
semelhante existe em qualquer outra democracia no mundo. É como se o
jovem EUA reencarnasse a opressão e a restrição britânica que os levou à
revolução, e que foram condenadas em sua Declaração de Independência e
banida na Lei dos Direitos. Vanunu refletiu isso com mordacidade, quando
ouviu sua nova sentença, afirmando que talvez sua apelação devesse ser
feita à rainha da Inglaterra.
Há outras diferenças entre os dois casos. A proposta
de Libby ao conversar com jornalistas era claramente para desacreditar
Joseph Wilson, que publicamente disse verdades que contradiziam as
mentiras governamentais. Algumas das informações confidenciais que Libby
revelou – sob direção de seu chefe, vice-presidente Dick Cheney – foram
por si mesmas e deliberadamente, para enganar a respeito das bases sob
as quais o país foi levado à guerra no Iraque. O episódio por ele
[embaixador Wilson] revelado do relatório secreto, com origem no
Conselho Nacional de Inteligência, foi seletivamente pinçado em um
contexto que incluía advertências de que as estimativas eram incertas e
com informações controvertidas dentro da própria comunidade de
inteligência. E era, na verdade, um erro. E no período seguinte em que
Libby foi autorizado pelo vice-presidente (cuja autoridade para fazê-lo
é bastante questionável), ambos Libby e Cheney sabiam disso - que as
estimativas reveladas eram falsas.
A outra peça da informação confidencial revelada por
Libby era o nome e a função da esposa de Joseph Wilson, Valerie Plame,
uma agente secreta da CIA que trabalhava na descoberta de amostras de
proliferação nuclear no Oriente Médio.
Revelação completa: não considero que toda informação
confidencial seja inviolável ou adequadamente mantida em segredo. Eu
mesmo fui colocado em julgamento por deliberadamente copiar e revelar
informações confidenciais, os “Documentos do Pentágono”. Mas eu nunca
teria revelado o nome e o status secreto de Valerie Plame. Ela estava
fazendo um trabalho que inquestionavelmente servia aos interesses
nacionais de segurança dos Estados Unidos e para que ela fizesse isso,
obviamente, é necessário o sigilo.
Além do mais, este segredo em particular (diferente
de qualquer coisa nos “Documentos do Pentágono”) é protegido por lei
aprovada pelo Congresso, o Ato de Proteção de Identidades de
Inteligência, que criminaliza a revelação de identidades de operativos
secretos. (O que exatamente Libby sabia de seu status clandestino
permanece desconhecido, graças aos seus “lapsos de memória”, ou talvez,
mentiras). Eu não contesto esse Ato cuidadosamente definido,
considerando que me oponho fortemente a Atos Secretos Oficiais, como o
britânico, que criminaliza toda e qualquer revelação de informação
confidencial, o que até o momento foi impedido pela nossa Primeira
Emenda.
ARSENAL NUCLEAR
Não há dúvidas de que a informação revelada por
Vanunu à imprensa em 1986 foi mantida em segredo em Israel e sua
revelação considerada ilegal. Primeiramente, de que Israel, que nunca
assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear nem nunca abriu suas
operações nucleares para qualquer inspeção internacional, era um Estado
com armas nucleares, com um arsenal maior do que o Britânico e talvez
maior que o da França. Por outro lado, nenhum Estado com armas nucleares
manteve seu status em segredo de seu próprio povo e do mundo: novamente,
com exceção da África do Sul, que revelou seu arsenal secreto ao mesmo
tempo em que anunciava o seu desmantelamento com o fim do apartheid.
Além disso, em 1986 esse programa (parte da revelação de Vanunu foi uma
surpresa mesmo para a CIA) era um segredo para os israelenses e outros
(incluindo oficialmente o governo americano) que escolheu acreditar nas
ambíguas e deliberadamente mentirosas negações israelenses.
De qualquer forma, era uma informação que os
compatriotas de Vanunu mereciam urgentemente receber havia anos, em
tempo de realizar um julgamento informado e democrático e influenciar
nas políticas de seu país. Em minha opinião, Mordechai Vanunu fez o que
deveria ter feito com a informação que ele obteve. Acredito que eu teria
tido a mesma atitude que ele em sua posição. Sua disposição em aceitar
os riscos pessoais que a sua revelação atualmente acarreta – que ele
sofreria uma longa sentença na prisão (e o maior tempo em confinamento
em solitária conhecido pela Anistia Internacional, que a define como
violação de direitos humanos) – merece a admiração do mundo inteiro, e
eu acredito, emulação. A continuidade das restrições e perseguições a
ele depois de cumprir sua sentença; seu novo retorno à prisão por seis
meses, com o pretexto de preservar um segredo revelado por ele há vinte
e cinco anos, são ilegais e ultrajantes.
PENA JUSTA
Quanto a Libby, não considero que sua sentença de 30
meses de cadeia foi, como o presidente Bush julga em seu perdão,
excessiva. Como Bush com certeza sabe com mais detalhes que nós, Libby
estava apenas levando a cabo, como rotineiramente, os desejos e ordens
manifestamente ilegais de seus chefes. Se isso for confirmado pela
investigação do Congresso que deverá ser revelada em conjunto com as
fraudes e violações de leis e da Constituição que nos levaram à guerra
(e pode levar de novo no Irã), deve levar ao impeachment e em seguida a
processo criminal de Richard Cheney e/ou George Bush. Mas o esforço em
abafar o caso nos dá agora a segurança de que uma condenação de Cheney –
ou até mesmo de seu superior - seria anulada pelo perdão presidencial.
Pode não ser verdade, como declarou Richard Nixon que “se o presidente
faz, não é ilegal”. Mas o que parece é que se ordenado pelo presidente
ou pelo vice-presidente, parece ser inimputável. Como em Israel, regras
apropriadas a um velho sistema imperial, não a uma República, estão em
voga.
Daniel Ellsberg destacou-se quando era
funcionário do Departamento de Defesa e revelou os “Documentos do
Pentágono”, a história secreta da agressão dos EUA ao Vietnã, que expôs
as mentiras do governo ao longo de 20 anos. Seus atos de resistência
ajudaram a galvanizar a oposição à guerra e abriram caminho para
Watergate e a queda de Richard Nixon.

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