|
O cinismo do sociólogo
Roberto Amaral*
A revista Piauí que anda nas bancas (número 11) traz,
ao lado de outras coisas mais interessantes, uma extensa matéria com o
sociólogo pachola. Um dos donos da revista, o cineasta João Moreira
Salles, foi ao pequeno estado de Rhode Island, ao norte de Nova York,
para passar um dia com o ex-presidente, pois é lá, na desconhecida
Universidade Brown, que FHC instalou sua base de operações
internacionais. Lá ele recebe 70 mil dólares e em troca fica na
universidade quatro semanas.
Nas outras folgas, faz conferências muito bem
remuneradas, a 60 mil dólares a unidade. Explica: "Em Praga, uma vez,
como éramos um grupo de palestrantes, não cheguei a falar nem 20 minutos
-- pagaram 60 mil dólares". E continua, fanfarrão: "Antes (de Brown)
recebi um convite de Harvard, não aceitei. Brown me pagava o dobro. A
Ruth ficou indignada: 'Mas é Harvard!' Eu disse: 'Ruth, a essa altura do
campeonato, eu não preciso de glórias. Preciso é de dinheiro'". E aí
está FHC por ele mesmo. O homem se move a dinheiro. Move-se agora como
sempre se moveu. Inclusive quando habitava o Alvorada.
Prendi-me a essa leitura porque, já na primeira
página desse extenso oba-oba, o cineasta nos traz uma interessantíssima,
senão cínica, declaração do sociólogo argentário: "Quando deixei a
presidência, fiquei assustado e me perguntei: como vou sobreviver?"
Coitado do Fernando Henrique, tão pobrezinho (que teriam a dizer os
aposentados do INSS?): a amnésia fez com que se esquecesse de sua
aposentadoria integral como professor da USP (aposentadoria que
igualmente percebe sua mulher), se esqueceu da aposentadoria pela
passagem no Congresso e na Presidência, das modormias preservadas. E se
esqueceu, acima de tudo, de sua agenda de telefones...
Mal FHC conclui essa sandice, o repórter ajunta esta
informação preciosa: "Alguns meses antes de terminar o segundo mandato,
Fernando Henrique convidou um grupo de empresários para jantar no
Alvorada, explicou-lhes que pensava criar uma fundação nos moldes das
bibliotecas presidenciais americanas -- onde conservaria toda a sua
documentação presidencial e promoveria palestras e debates sobre o
futuro do país. Do encontro nasceu o Instituto Fernando Henrique
Cardoso, com dotação inicial de 7 milhões de reais, sua base de
operações no Brasil". E o Instituto, uma ONG, sai mundo à fora vendendo
seminários, pesquisas e outros trambiques.
Apesar de tudo isso, a Piauí é uma boa revista, um
revival da antiga Senhor dos anos sessenta. Certamente terá vida mais
longa, pois seus pais são filhos de banqueiros.
(*) Roberto Amaral é professor universitário,
vice-presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro, ex-Ministro
da Ciência e Tecnologia e autor de diversos livros entre os quais
Socialismo, vida, morte e ressurreição (Vozes), O papel do intelectual
na política (Edições Demócrito Rocha) e Em defesa da utopia (Edições
Fundação João Mangabeira)

|