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Agricultura familiar: escolhas e
desafios
Guilherme Cassel*
[31-07-07]
A agricultura familiar é responsável por cerca de 60%
dos alimentos que chegam à mesa das famílias brasileiras e pela
matéria-prima para muitas indústrias, representando 85% do total de
estabelecimentos rurais do país. Além disso, contribui para o esforço
exportador do Brasil, sendo responsável por cerca de 10% do PIB
nacional. Ao todo, são aproximadamente 4,1 milhões de famílias gerando
renda e respondendo por 77% das ocupações produtivas e dos empregos no
campo.
Esses dados justificam os investimentos nesse setor
que, além de produzir alimentos, gera trabalho e renda, ajudando a
construir um padrão sustentável de desenvolvimento.
O Plano Safra 2007/2008 da Agricultura Familiar
disponibilizará R$ 12 bilhões nas diversas linhas de crédito para
custeio, investimento e comercialização do Pronaf (Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar) -R$ 2 bilhões a mais do que foi
investido na safra 2006/ 2007. Ao todo, serão cerca de 2,2 milhões de
famílias acessando o crédito do Pronaf, com aumento de cerca de 10% dos
valores médios financiados em relação à safra passada.
Além da ampliação do crédito, o Plano Safra traz
outros avanços: mais recursos a juros menores, ampliação e qualificação
dos serviços de assistência técnica e extensão rural, novos estímulos à
diversificação produtiva, à proteção do meio ambiente e à geração de
renda.
Trata-se do maior e mais completo plano da
agricultura familiar. É o maior pelo volume de recursos, pela taxa de
juros, que nunca foi tão baixa, e porque é capaz de agregar mais de 2
milhões de famílias ao programa. E é o mais completo porque, pela
primeira vez, há um leque de políticas que cobre todo o âmbito da
agricultura familiar: seguro, assistência técnica, comercialização,
agroindústria e desenvolvimento territorial.
Outro elemento importante é a democratização da
distribuição dos recursos, condição para a superação de distorções
regionais. Há quatro anos, 80% dos investimentos eram aplicados na
região Sul; hoje, quase 50% de todos os recursos investidos estão no
Nordeste, que conta com mais de 2 milhões de agricultores familiares.
Para dimensionar a importância dessas políticas, vale
lembrar que, nas últimas décadas, a combinação de uma estrutura agrária
concentradora e de padrões tecnológicos excludentes produziu o
empobrecimento de milhares de famílias, processo que, em muitos casos,
resultou na perda de suas propriedades, na perda da biodiversidade e na
contaminação pelo uso intensivo de agrotóxicos.
Do ponto de vista social, o êxodo forçado do campo
alimentou um processo de urbanização caótico. Do ponto de vista
ambiental, a degradação de nossas reservas naturais e a redução da
biodiversidade trouxe impactos que não podemos esquecer.
A diversidade das culturas está se reduzindo nos
terrenos agrícolas de todo o mundo, conforme advertência feita pela FAO
(Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) em 2006.
Nos últimos cem anos, 75% das variedades agrícolas se
perderam. Historicamente, o ser humano utilizou entre 7.000 e 10 mil
espécies, ao passo que hoje só se cultivam 150 espécies -12 das quais
representam 75% do consumo alimentar humano. Dessas, só quatro espécies
são responsáveis pela metade dos nossos alimentos.
Reverter esse quadro de destruição da biodiversidade
exige investimentos em práticas ambientalmente sustentáveis e em
tecnologias de energia renovável.
Podemos repetir experiências do passado,
concentradoras de terra e de renda, com forte impacto social e
ambiental, ou trilhar novos caminhos, aliando a produção de alimentos de
qualidade ao uso de biomassa para diversificar nossa matriz energética,
a políticas de distribuição de renda, geração de trabalho e combate à
pobreza rural.
Países como França, Itália e Alemanha mostraram como
a agricultura familiar contribui para a preservação ambiental e para a
melhoria da qualidade de vida da população.
Historicamente, o Brasil construiu um modelo agrícola
baseado fortemente na monocultura. Os problemas sociais, ambientais e
energéticos que nos desafiam parecem indicar que está na hora de
seguirmos outros rumos.
(*) Guilherme Cassel, 50, engenheiro civil, é
ministro do Desenvolvimento Agrário.

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